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Luiz costa
Os imóveis irão compor o projeto de expansão das instalações do Colégio Santo Agostinho
Abandonados e até então condenados à ação do tempo, quatro casarões históricos localizados na Avenida Amazonas, entre ruas Aimorés e Mato Grosso, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, serão completamente restaurados. Os imóveis, construídos em sua maioria no fim da década 1930, irão compor o projeto de expansão das instalações do Colégio Santo Agostinho. Foi a solução encontrada pela instituição de ensino para ocupar os casarões, alvos de processo de tombamento iniciado há três anos.
Um edifício de onze andares será construído nos fundos das residências, onde antigamente ficavam os quintais. Dois pavimentos serão destinados à instituição de ensino, que ainda não definiu se os ocupará com salas de aula ou com laboratórios e salas de apoio ao colégio, localizado do outro lado da Rua Aimorés. Os demais andares abrigarão salas comerciais. O prédio terá 200 vagas de estacionamento. O investimento não foi anunciado.
Toda a estrutura dos casarões deverá ser preservada respeitando as características originais, e está vedada a demolição parcial para aproveitamento apenas da fachada. De acordo com a assessoria de imprensa do colégio, a ocupação das casas ainda está em análise. Em princípio, estuda-se instalar em um dos imóveis uma biblioteca da Ordem dos Padres Agostinianos. Outra casa receberá, possivelmente, um centro cultural. Há ainda a ideia de se criar um memorial agostiniano em um dos sobrados – no ano passado, completaram-se 80 anos de presença da ordem no Brasil.
A discussão sobre o futuro do conjunto arquitetônico ocorre desde 2002, quando o Colégio Santo Agostinho sinalizou pela demolição do casario histórico. Um quinto imóvel do conjunto arquitetônico recebeu autorização do Conselho Deliberativo do Patrimônio Histórico do município para ser destruído. A casa, bastante descaracterizada pela construção de um terceiro piso, deverá ser destruída para dar lugar a uma das entradas do edifício.
O próximo passo do colégio é apresentar o projeto de restauração à prefeitura, com base nas diretrizes discutidas no conselho do patrimônio. Se aprovado, a instituição receberá alvará para dar início às obras, previstas para começarem ainda no primeiro semestre do ano que vem.
Os projetos de construção do prédio e de restauração estão a cargo da Construtora Diniz Camargos, responsável pela reforma de outro imóvel simbólico da cidade, o “Balança mas não cai”, também localizado na Avenida Amazonas, no Centro.
Outras duas residências vizinhas aos imóveis pertencentes ao colégio também serão tombadas. Ambas foram incluídas no processo de proteção do conjunto urbano da Avenida Barbacena, também em tramitação no conselho do patrimônio. Assim como a instituição de ensino, os proprietários desses imóveis serão convocados a providenciar a restauração.
Herdeiro de uma das casas, o empresário Almir Cruz Filho analisa reformar o imóvel para posterior negociação. “Esperei muito tempo até essa decisão da prefeitura. Com a revitalização dos casarões do colégio, temos que ver qual a melhor destinação da casa”, afirma Almir, que recebeu de sua família a incumbência de inventariar o imóvel. A outra casa, localizada na esquina com Rua Aimorés, é a mais preservada e a única ocupada: nos dois andares funcionam um curso de inglês e, no porão, uma lanchonete. A proprietária não respondeu às ligações da reportagem.
A Secretaria Municipal de Cultura espera concluir o processo de tombamento em breve. Segundo a diretora de Patrimônio Cultural, Michele Arroyo, a ficha de inventário e o dossiê de tombamento estão praticamente prontos.
Dos sete casarões, seis estão abandonados desde os anos 80. Com a consolidação da Avenida Amazonas como um dos principais corredores viários do município, os imóveis perderam a atratividade como moradia. Os vãos das portas e janelas estão lacradas com alvenaria para evitar invasões. Telhados estão destruídos. Contribui para a degradação as pichações e o lixo espalhado pelas áreas onde um dia existiram jardins frontais.
A descaracterização da arquitetura também preocupa. Em todos os imóveis os muros foram elevados. Há grades, garagens improvisadas e até um telhado de amianto em uma das casas. “Mas nada que uma reforma bem feita não resolva”, diz Luciana Ferez, diretora de Patrimônio do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-MG).
Primeiro passo para revitalizar trecho de avenida
Espera-se que a reforma dos casarões impulsione a revitalização do trecho da Avenida Amazonas entre a Praça Raul Soares e a Avenida Barbacena. “Essa restauração qualifica a paisagem urbana. Se as casas abandonadas já chamam atenção, imagine quando elas recuperarem suas características originais”, afirma a diretora de Patrimônio Cultural, Michele Arroyo.
Ela destaca a recente recuperação da própria Raul Soares, há duas quadras dos sobrados da Avenida Amazonas. “Essa revitalização do casario tem tudo para mudar o estado de abandono desse trecho da avenida”, completa Luciana Ferez, diretora de Patrimônio do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-MG).
A lei municipal referente a tombamentos incentiva o proprietário a recuperar a construção ao conceder isenção no Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU) e possibilidade de venda do potencial construtivo. O patrimônio histórico de uma cidade é o conjunto das manifestações produzidas socialmente ao longo do tempo no espaço urbano, seja no campo das artes, no modo de viver ou na imagem da própria cidade, com seus atributos naturais e edificados.
“Nossa cultura valoriza o novo, o moderno. É uma mentalidade que precisa ser mudada. O brasileiro, quando vai à Europa, acha as construções antigas lindas. Aqui, o antigo ganha outro sentido: é velho, tem que ser destruído”.