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Renato Cobucci
Região de Venda Nova é a que registra a maior parte dos casos de notificações
“Onde moro há lotes na vizinhança com mato alto, garrafas velhas, pneus encostados. Desde fevereiro, na minha família, cinco pessoas pegaram dengue. A última, é a minha sobrinha, a Gabriela, de 10 meses, que vim trazer para consultar. Eu não peguei ainda por sorte”, relata a dona de casa Narinda Alves Fernandes, 72 anos, moradora do Bairro Leblon, em Venda Nova, região em Belo Horizonte. A região é a que registra a maior parte dos casos de notificação por dengue. Narinda estava no Centro de Saúde Santa Mônica, na mesma região, onde aguardava os resultados dos exames da criança.
Se a única forma de combater a dengue é eliminando os focos do mosquito Aedes aegypti, a limpeza de lotes e quintais está entre as principais práticas de prevenção, assim como a remoção de objetos que acumulam água, a adição de areia em vasos de plantas, manter depósitos de água limpa fechados, entre outros. Os mosquitos gerados em um lote podem ser os principais suspeitos de transmitir a dengue para uma vizinhança inteira, como é o caso de Narinda.
Com dores no corpo e febre, a assistente social Dehonara de Almeida Silveira, 44 anos, também estava no centro de saúde. Ela encara pela segunda vez os sintomas da doença. “Minha mãe, meu filho de 11 anos e um sobrinho, de 28 anos, também tiveram dengue neste ano”, lista. A assistente social diz que os lotes vagos e com lixo são comuns no bairro onde mora. “Em fevereiro, a PBH esteve na minha casa e recolheu vários objetos”, admite Dehonara, que mora no Bairro Santa Mônica.
De acordo com informações da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU), as denúncias sobre sujeira em lotes vagos recebidas pelo telefone 156 são fiscalizadas pela instituição. O proprietário é notificado e tem 15 dias para limpar a área. Se não o fizer, ele é multado em R$ 908,28. Depois dessa multa, se não limpar o local, a SLU limpa, mas cobra R$ 1,19 por metro quadrado.
O “problema” gerado no terreno do vizinho também pode ter sido a causa da contaminação da dona de casa Ivana Guimarães Gonçalves, 43 anos, moradora do Bairro Candelária, em Venda Nova. “A minha casa eu limpo. Difícil são os vizinhos limparem os terrenos deles”, afirma. Ivana sentiu os sintomas da dengue (febre, dor no corpo, dor de cabeça, dor nos olhos) e teve que ser encaminhada para a Unidade de Reposição Volêmica (URV), no Hospital São Francisco.
A URV foi aberta em 12 de fevereiro para atender pacientes vítimas do surto de dengue na capital mineira. O coordenador da unidade, Leonardo Marques, informa que são encaminhados para o local apenas os pacientes mais graves, que precisam de tratamento e hidratação imediata. Até esta quinta-feira (11), 136 pessoas já haviam sido atendidas desde a abertura da unidade. “Cerca de 80% dessas pessoas são de Venda Nova”, estima o coordenador.
O número de atendimentos na URV tem aumentado semanalmente. De 14 a 20 de fevereiro, 23 pacientes passaram pelo local; de 21 a 27 do mesmo mês, este número subiu para 39 pacientes atendidos, número que se manteve praticamente estável entre 28 de fevereiro e 6 de março. “De 7 a 11 de março, registramos 36 casos, mas como o período fecha na sexta-feira (12), acredito que esse número aumente um pouco”, prevê Marques.
15 contaminados em uma mesma rua
Quinze pessoas foram contaminadas pela dengue na Rua Rui Barbosa, no Bairro Santa Mônica, onde mora a funcionária pública Maria da Penha de Moura, 45 anos. “Cada vez que a Prefeitura passa nas ruas próximas da minha casa, são levadas toneladas de lixo”, diz. Uma das moradoras atingidas na rua foi a cuidadora de idosos Maria da Glória de Almeida, 45 anos. “Dois filhos meus adoeceram também”, acrescenta.
A funcionária pública conta que os moradores alegam que não sabiam que o lixo poderia ser um foco de geração do mosquito. “Os lotes ficam fechados e os donos nunca aparecem. Não temos como invadir para limpar”, argumenta Maria da Penha, que também sofreu com a doença no surto ocorrido em 1999. “Naquela época, eu morava aqui e cinco pessoas da minha família adoeceram também”, lembra.
Por causa do surto, a Secretaria Municipal de Saúde (SMSA) promove ações de entrada forçada em imóveis que já passaram por várias tentativas de fiscalização pelos agentes de combate a endemias. O procedimento conta com vários prazos publicados no Diário Oficial do Município. Nesse caso, o proprietário é multado em R$ 6.579.
Até a última quarta-feira, foram registradas 7.227 notificações da doença em Belo Horizonte. Do dia 3 até o dia 10 de março, o aumento no número de notificações foi de 44,2%.
No Estado, já foram notificados mais de 39 mil casos. Até esta quinta-feira, a SMSA havia promovido 38 mutirões de limpeza contra a dengue, com o recolhimento de mais de 400 toneladas de lixo e cerca de 540 pneus.