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DIVULGAÇÃO/SARAIVA
Deric Degaspari Guilhen: sistema é tendência mundial
Imagine duas situações. Um sábado frio e chuvoso, no qual a sua vontade é assistir a um filme, comendo pipoca debaixo do cobertor. Ou você acaba de chegar do trabalho, cansado, e se lembra de que poderia ter alugado uma boa comédia para relaxar. Até os primeiros meses do ano, a única opção seria deixar o conforto de casa e ir a uma locadora escolher um DVD. Ainda correndo o risco de chegar lá e não encontrar o título desejado. Principalmente, se for lançamento.
Hoje esse desfecho seria diferente. Quem tem um computador com conexão banda larga tem outra alternativa, sem precisar se deslocar ou esperar a disponibilidade do produto. Graças a iniciativas pioneiras no Brasil e na América Latina de duas empresas: a Saraiva e a NetMovies. A primeira lançou, em maio, a Saraiva Digital, serviço que permite ao usuário fazer downloads legais de todo tipo de filme e séries de televisão. Na mesma trilha, a NetMovies foi além: já disponibiliza longa-metragens em formato streaming. Ou seja, com apenas um clique, o internauta inicia sua sessão de cinema na tela do PC.
Os dois modelos seguem uma tendência que está se consolidando ano a ano em todo o mundo: o crescimento do mercado de entretenimento virtual. Tudo começou com a música, quando o formato MP3 estimulou downloads legais e ilegais na Internet. Depois disso, games, jogos de futebol, capítulos de novelas, séries de televisão e diversos outros artigos digitais não pararam mais de ganhar adeptos.
Somente entre o primeiro semestre de 2008 e o de 2009, o consumo de diversão e cultura na Web registrou expansão de 16%. Perdeu apenas para o aumento de internautas nos sites de turismo (28%), conforme dados do Ibope Nielsen Online. No mesmo período, o acesso a vídeos subiu 34% e ainda tem muito espaço para crescer.
É justamente para abocanhar essa fatia de mercado que a Saraiva formatou seu novo serviço. "Temos origem como livraria, mas nosso foco é oferecer conteúdo, entretenimento e lazer para nosso cliente. Por isso, resolvemos apostar agora na área digital, que já é sucesso nos Estados Unidos e em países da Europa. É a grande tendência hoje", argumenta o diretor de Produtos Digitais da Saraiva, Deric Degaspari Guilhen.
A locadora virtual foi lançada em maio, com 400 títulos para venda e 350 para locação. Hoje, o catálogo chega a 950 nomes para venda e 650 disponíveis para aluguel. Na última sexta-feira, o site lançou sua primeira série de TV completa. São dez temporadas de Friends, somando 250 episódios, aproximadamente.
Até o fim do ano, Guilhen estima ofertar cerca de 2 mil itens para locação. "A aceitação foi muito boa. Em três meses de funcionamento, superamos as expectativas iniciais, especialmente entre clientes de classes que julgávamos mais conservadoras. Agora, precisamos ampliar o conteúdo para manter e aumentar o público", avalia o executivo. Ele, no entanto, não cita valores de investimentos nem total de clientes, pelo fato de a companhia ter capital aberto.
Os preços para o aluguel de filmes são menores ou iguais aos encontrados em locadoras físicas. Variam entre R$ 1,90 e R$ 6,90. E não há multa por atraso na entrega, uma vez que a imagem expira após 24 ou 48 horas.
A NetMovies, maior locadora online do país, largou atrás da Saraiva Digital no que diz respeito à oferta de filmes digitais. Mas inovou no formato. A empresa lançou ontem o NetMovies Live. Trata-se do primeiro serviço de streaming legalizado de filmes no Brasil. Significa que o usuário pode assistir a qualquer conteúdo pela Internet, sem necessidade de "baixar" e instalar um programa específico. Também não há exigências mínimas de processador ou memória no computador do usuário.
"Em linguagem bem simples, é como se o cliente assistisse a um vídeo no You Tub e. Só que é um longa-metragem, de alta qualidade, semelhante ao DVD. E ele consegue abrir o filme para a tela inteira do computador ou da TV, se conectar o micro a ela", detalha o CEO da empresa, Daniel Topel.
Segundo ele, a NetMovies foi fundada em 2004 com a intenção de "melhorar a experiência de assistir a filmes em casa". "Entendemos que as locadoras tradicionais estão defasadas. Então trabalhamos com o modelo de assinaturas mensais e a entrega em casa. Além de um catálogo de 18 mil títulos. O novo serviço é uma extensão natural da oferta de mais comodidade", completa Topel.
O acervo virtual conta, inicialmente, com 100 títulos, entre clássicos e filmes de arte, como A Bela da Tarde, de Luis Buñuel, e Amarcord, de Fellini. Também serão disponibilizadas coleções completas de grandes diretores como Truffaut, Scuola, Chaplin e Hitchcock.
"Escolhemos começar com esses, pois há uma demanda entre os clientes. É difícil encontrar esses filmes no mercado e também de forma ilegal na Internet. A meta é ter, até o final do ano, 2.500 títulos digitais de diferentes gêneros, incluindo os lançamentos", ressalta Topel. Ele observa que o objetivo é ter todo o acervo digitalizado, mas não arrisca um prazo para isso. O desafio, de acordo com o executivo, ainda é a liberação das licenças pelos estúdios, que ainda estão testando o retorno dessa nova tecnologia no Brasil.
Na avaliação do diretor executivo da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico (Câmara-e.net), Gerson Rolim, os obstáculos atuais serão vencidos no curto prazo. "O vídeo é um dos segmentos em que a desmaterialização vai acontecer efetivamente. A música nos comprova muito bem o resultado da migração do consumidor para o digital. A forma não foi a melhor, e as gravadoras perderam dinheiro com isso, pois houve um imenso consumo não autorizado. Os estúdios cinematográficos aprenderam com esses erros do passado", garante Rolim. Ele acrescenta que o formato digital oferece vantagens para os autores, distribuidores e consumidores. "O sucesso dessa tecnologia é certo, se ela for corretamente precificada. Se não, o usuário não terá interesse", alega.
Internauta assíduo, o estudante de Relações Internacionais Gabriel Guimarães Horta faz a mesma avaliação de Rolim. E, nesse caso, com grande "conhecimento de causa". "Eu fico na Internet todos os dias dias. Pelo menos, uma hora. Além de ler sites e emails, uso para baixar músicas, jogar online, assistir a vídeos, lances de futebol, entre outras coisas. Vejo também todas as séries mais famosas da televisão, como Friends, Heroes etc. E até algumas menos conhecidas", relata.
Para ele, alugar um filme digitalmente vai depender muito do preço. "Tem que ser acessível, vir com os bônus, numa velocidade maior. Oferecer atrativos", comenta. Com 26 anos, Horta conta que tem diversos amigos que, inclusive, já baixaram filmes ilegalmente da Web. E garante que eles também têm essa visão.