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| .Economia e Negócios |
SÃO PAULO E INTERIOR PAULISTA - Por trás da bucólica visão de bonitos e saudáveis rebanhos bovinos de corte soltos em pastagens brasileiras se “escondem” inovações tecnológicas, presentes em toda a cadeia produtiva, que impulsionam esse setor, considerado um dos mais importantes do agronegócio brasileiro. De importador de carne há cerca de 15 anos, o Brasil de hoje exporta - nas formas in natura, industrializada e miúdos - entre 22% e 25% da produção total de carne bovina, estimada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) em 8,21 milhões de toneladas para o ano-safra 2010/1011. E o segmento tem campo para crescer no mercado externo, por exemplo, com a retomada das vendas para a China, a partir do segundo semestre de 2010, e a previsão da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO/ONU) de que a demanda por proteína animal dobrará até 2050. As possibilidades de expansão do mercado interno também são reais, com a recuperação da economia e o aumento do número de empregos e da renda.
O papel da tecnologia na expansão desse segmento, na opinião do presidente do Fórum Nacional Permanente de Pecuária de Corte da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Antenor Nogueira, é considerável. “O avanço da genética no rebanho, o manuseio do gado e a alimentação são importantes”, observa.
No tocante à alimentação, avalia, a melhoria é nítida, principalmente na região Centro-Oeste do país, que concentra cerca de 60% do rebanho nacional, estimado em 190 milhões de cabeças. “Antigamente, no pasto, com a utilização do sal, o ganho de peso dos animais era de 700 gramas por dia. Com o regime de semiconfinamento, a média subiu para um quilo e meio e, em confinamento, dois quilos”, argumenta.
Embaladas pela chance de expansão do mercado interno, empresas e indústrias do segmento de corte não param de investir e crescer. Pesa a favor do produtor de carne bovina, também, a tendência de melhoria no preço da arroba do boi, atualmente em cerca de R$ 78. Para dezembro, o mercado sinaliza a arroba ao preço de R$ 84 a R$ 85.
Um caso emblemático de aposta na expansão da bovinocultura de corte é a Agro Santa Bárbara, que, em apenas quatro anos e meio no mercado, formou rebanho de 450 mil cabeças - o maior de gado a pasto do mundo - espalhado por seis grandes conjuntos de fazendas no Pará, em uma área de 500 mil hectares, sendo 240 mil de pasto natural.
A empresa, formada por um grupo de investidores, entre eles o polêmico banqueiro Daniel Dantas, possui unidades, ainda, nos municípios de Amparo/SP e Uberaba, no Triângulo Mineiro, voltadas para a produção e disseminação genética com foco no mercado como um todo e nas demais unidades da empresa. Essas unidades atuam, também, com seleção de animais, principalmente da raça Nelore, muito utilizada na produção de carne.
Considerado o maior empreendimento de pecuária de corte do país, a Santa Bárbara exibe números robustos. Até o momento, o investimento no negócio, com capital 100% nacional, de acordo com o presidente da empresa, Carlos Rodenburg, foi de R$ 1,2 bilhão. Só para 2010, a previsão do grupo é de colocar mais R$ 100 milhões no negócio, entre investimentos e operações. O projeto prevê o crescimento gradativo do plantel, que, segundo ele, deve se estabilizar em 1,2 milhão de cabeças até 2030. A Santa Bárbara, diz, busca retorno acima de 20% ao ano sobre o capital investido. “Já passamos de 15%, pois a produção em escala faz diferença. Os nossos custos de produção são bem diferentes dos da média”, pondera.
O negócio da empresa, pelo menos por enquanto, está ligado à parte de cria, ou seja, venda de bezerros de mais peso. Atualmente, o plantel é formado por 15 mil cabeças de Nelore P.O (puro de origem). Para conseguir animais de qualidade e obter retorno financeiro satisfatório - as vendas de bezerros têm ágio médio de 40% -, a empresa investe pesado em melhoramento genético. Conforme Rodenburg, existem quase 52 mil cabeças sendo submetidas a inseminação artificial. “Temos fazendas com 75% das fêmeas sendo inseminadas. Buscamos, sempre, usar a tecnologia para aumentar nossa produção”, observa.
Os resultados desse investimento em melhoramento genético e gestão do negócio podem ser observados na ponta do lápis. A produtividade atual das fazendas é de duas cabeças por hectare, bem superior à média brasileira, de 0,8. “Queremos chegar a quatro cabeças por hectare até 2015”, salienta o presidente da Santa Bárbara. No futuro, o grupo não descarta a possibilidade de atuar também nos mercados de recria e engorda. “Tudo depende do mercado”, salienta. A diversificação é uma alternativa futura para o grupo, como também a entrada no segmento de leite. De acordo com Rodenburg, um projeto piloto para 2010 para esse setor se encontra em fase de estudos.
Outro exemplo de investimento em tecnologia é a Agro-Pecuária CFM, sediada em São José do Rio Preto/SP, que iniciou, em 1982, a formação de um núcleo de elite. A cada dois anos, vacas Nelore que produziam bezerros com mais peso, portanto, de melhor genética, passaram a ser criadas separadamente, formando um grupo diferenciado. Hoje, as matrizes da empresa, que possui rebanho de 60 mil cabeças, produzem 2 mil touros por ano, todos avaliados com o Certificado Especial de Identificação e Produção (Ceip), emitido por instituições credenciadas pelo Mapa. Segundo o coordenador de pecuária de corte da CFM, Luis Adriano Teixeira, de cada 100 bezerros de qualidade genética superior nascidos, apenas 30 - a nata dos top de linha - recebem o certificado. Os demais, mesmo com características superiores à média, são vendidos para o mercado. “Assim, garantimos a qualidade máxima do nosso rebanho e dos nossos clientes”, opina.
A diferença entre os bezerros top e os demais pode ser medida nos valores apurados pelos animais em leilões da CFM. No último deles, em agosto de 2009, os melhores foram comercializados por R$ 7.100, ante média de mercado de R$ 4 mil a R$ 4.500. As avaliações dos animais estão concentradas em várias variáveis, como peso à desmama, ganho de peso, conformação, precocidade e musculosidade, altura e perímetro escrotal. Segundo Teixeira, os clientes mineiros atendidos pela empresa estão concentrados em municípios das regiões Central e Norte, como Curvelo e Bocaiúva. “A dificuldade de atender Minas acontece apenas pela logística, já que o gasto com frete pesa no custo dos produtores”, avalia.
Para ele, a realidade do mercado praticamente elimina produtores que negligenciam o investimento em tecnologia ou em animais de melhor genética. “Quem não encara a bovinocultura como empresa tende a sair do mercado, já que o custo de produção cresce em uma velocidade maior do que o preço da arroba do boi”, observa. Conforme ele, o ideal é que o produtor leve adiante o tripé genética, sanidade do rebanho e nutrição adequada. “Se o gado é criado livre no pasto, precisa, pelo menos, utilizar o sal mineral. Acredito que o produtor de menor porte não precisa investir, por exemplo, em fertilização in vitro. Mas precisa levar adiante alguns aspectos, como ter touros com avaliação genética, descartar as vacas pouco produtivas e fazer uma gestão eficiente das contas, como receitas e despesas”, observa.
Aftosa mobiliza setor de vacinas
Para garantir a expansão dos negócios e do investimento na cadeia, a sanidade do rebanho é fundamental. Para 2010, a campanha de vacinação do rebanho brasileiro contra a febre aftosa demandará a produção total de aproximadamente 450 milhões de doses nas duas etapas do processo: abril/maio e outubro/novembro, sendo que cerca de 50 milhões ficarão armazenadas na Central de Selagem de Vacinas, em Vilhedo/SP. Conforme o coordenador da Central, Sílvio Cardoso Pinto, as vacinas deste ano apresentam uma novidade, pois estão “limpas”, isto é , os exames de sorologia não mais detectam “estilhaços” do vírus morto utilizado na fabricação.
Tecnologia de ponta garante melhoramento
A perspectiva de expansão dos negócios em 2010 é uma tônica entre indústrias que atuam na cadeia da pecuária de corte. Para se ter ideia da expansão dos negócios no setor, o número de frigoríficos, segundo o presidente do Fórum Nacional Permanente de Pecuária de Corte da CNA, Antenor Nogueira, “dobrou” nos últimos dez anos. Atualmente, existem 700 desses estabelecimentos registrados no Serviço de Inspeção Federal (SIF), sendo 16 com capacidade de exportação.
O Estado de São Paulo, apesar de não figurar entre os maiores produtores de carne bovina, é o maior responsável pelas exportações, pois reúne maior numero de frigoríficos credenciados para vendas externas, como os grupos JBS Friboi e Marfrig. “Os quatro maiores estabelecimentos detém 80% das exportações”, diz Nogueira, que acredita na retomada dos negócios do setor após a crise de 2008. “A expectativa da cadeia é de crescimento.”
A tecnologia utilizada na produção de bovinos selecionados, com precocidade - idade para abate de, no máximo, 36 meses -, volume de carne e gordura, normalmente, visa atender justamente frigoríficos certificados para exportação. O Marfrig, quarto maior produtor mundial de carne bovina, mas que possui também unidades de abate de aves, suínos e cordeiros espalhados por nove países, tem capacidade instalada para abater 22.350 cabeças/dia no país. Para o diretor industrial da empresa no Brasil, Roberto Mülbert, os frigoríficos estão cada vez mais atentos à produção de carnes de qualidade.
“O aumento do poder de compra do consumidor brasileiro daqui para frente certamente levará as pessoas a consumirem mais proteína animal. Para fora, trabalhamos com a expectativa de incremento do mercado chinês e também nas vendas para outros países, já que temos ainda que crescer 40% nas exportações para voltar aos patamares de produção de antes da crise mundial”, comenta.
De acordo com Mülbert, antes da crise, as exportações respondiam por 65% da produção de carne. “A coisa se inverteu e, hoje, 60% da produção vai para o mercado interno.” Na opinião do diretor, os frigoríficos brasileiros de ponta estão preparados para atender a demanda da União Europeia, que paga melhor pela carne brasileira. Falta, ainda, avalia, uma adaptação maior às exigência do bloco por parte das propriedades rurais.
As empresas do segmento de melhoramento genético estão atentas ao desenvolvimento da bovinocultura de corte. No município de Sertãozinho/SP, as instalações da CRV Lagoa, tida como a maior central de inseminação artificial da América Latina, com capacidade para 120 reprodutores, de várias raças de corte e leite, estão lotadas. Só em 2009, a empresa, que possui cerca de 25% de participação no mercado, superou a marca de 2 milhões de doses de sêmen vendidas, e projeta crescimento de 25% para 2012. Para o exercício 2012/2013, a expectativa da empresa, com sede na Holanda, é crescer 5% acima do mercado brasileiro de inseminação e atingir o volume de 3,1 milhões de doses de sêmen.
Diferentemente do que muita gente imagina, ter um plantel com genética mais apurada, dependendo do projeto, da escala de produção e do tipo de retorno esperado pode não ser tão caro. Com isso, produtores de pequeno porte também podem participar desse nicho de mercado. Conforme o gerente comercial da CRV Lagoa, Antonino Bosco de Resende, o laboratório de sêmen sexado da empresa - técnica que permite ao pecuarista escolher o sexo do animal, com até 90% de acerto - oferece o produto com preços três a quatro vezes superior ao valor do sêmen comercial. Levando-se em conta que o valor de uma dose varia entre R$ 10 e R$ 1.500, o produto está acessível à maioria dos produtores.
A tecnologia pode até diminuir custos. Hoje, o pecuarista paga, em média, R$ 5 mil para cobrir de 20 a 30 vacas/ano, e pode não ter tanta eficiência assim. “Com R$ 3 mil, você compra todo o material para começar o processo de inseminação e ainda sobra dinheiro para adquirir muito sêmen. No caso de rebanhos pequenos, a redução de custos poderia ser ainda maior se os interessados se organizassem para fazer inseminações comunitárias. De toda forma, o mais importante disso tudo é o ganho genético do produtor”, opina Resende.
Sêmen chega ao produtor via Sedex
O setor está tão sofisticado que já é possível ao pecuarista economizar com o deslocamento de sua cidade até Sertãozinho. Isso porque ele pode receber um botijão especial na sua propriedade contendo o produto, via Sedex, em até 72 horas. Os preços variam conforme o local de destino. Sensível ao calor, o material, acondicionado em um recipiente preenchido com nitrogênio líquido, é transportado sob temperatura de 196 graus negativos. Ao receber a embalagem, cabe ao produtor depositar o material em um recipiente refrigerado próprio e devolver o botijão.
O mercado mineiro de inseminação artificial - que inclui outras técnicas, como fertilização in vitro e marcadores genéticos - é importante para o negócio da CRV Lagoa. De acordo com Resende, representa cerca de 30% das vendas da unidade brasileira. Para o gado de leite, predominante em Minas Gerais, a genética, conforme ele, proporciona vários ganhos ao pecuarista, principalmente aumento da produção e produtividade, redução na incidência de mastite - inflamação das glândulas da mana pelo acúmulo de leite - e maior longevidade das vacas.
Para garantir rebanho de qualidade, a tecnologia também é protagonista na saúde dos animais. Empresa de origem norte-americana, que atua na produção de aditivos medicamentosos e nutricionais para bovinos, aves e suínos, a Phibro Saúde Animal, localizada em Guarulhos/SP, destina atualmente 80% da produção ao setor de aves. Cabe aos ruminantes apenas 15% da participação total dos produtos.
Esse quadro, porém, tende a mudar. O “pulo do gato”, avalia o vice-presidente e diretor-geral Stefan Mihailov, é o crescimento do rebanho brasileiro de bovinos - Minas Gerais detém o segundo maior rebanho, com cerca de 22,5 milhões de cabeças - e a adoção de tecnologias no setor de saúde animal, visando melhorias de rendimento.
O faturamento das operações Brasil para 2010, segundo o executivo, deve crescer de 12% a 14% sobre os US$ 100 milhões do ano passado. “Nos últimos dois anos, nossa expansão foi de 64% acima da média do mercado brasileiro de saúde animal”, pondera. A ideia da Phibro, daqui para frente, é fortalecer a presença da sua gama de produtos em propriedades de criação extensiva, maioria no país, que normalmente utilizam como apenas sal mineral como suplemento. “A partir de agora, vamos intensificar nossas ações no campo por meio, por exemplo, de dias de campo, pesquisas e provas testemunhais de produtores que tiveram ganhos com a utilização de nossos produtos.”
Uma das apostas da empresa de origem norte-americana, que fabrica e vende mais de 500 diferentes fórmulas, são os produtos à base de virginiamicina, principal produto de exportação da Phibro. O produto diminui a população de bactérias no organismo do animal e, por tabela, melhora a absorção de nutrientes. Essa equação propicia ganho de peso. A virginiamicina é obtido por meio de um complexo sistema de fermentação. Para se ter ideia, a planta industrial de Guarulhos, que possui 25 mil metros quadrados de área construída, consome 4.500 MW/mês de energia, o suficiente para atender uma cidade com 80 mil habitantes.
Importante indústria de suplementos minerais para animais, com presença no Brasil e mais 18 países da América Latina, Europa e Ásia, a Tortuga pretende crescer, em 2010, 15% sobre o faturamento de R$ 736 milhões apurado em 2009 e também em relação ao volume de produção.
De acordo com o gerente de Marketing da empresa, Juliano Sabella, o otimismo se deve à estabilização do mercado de fósforo, matéria-prima mais cara na composição de suplementos mineiras. Este produto mais do dobrou de preço após o início da crise mundial de 2008. Em 2009, diz o gerente, o preço caiu até outubro e, de lá para cá, tem se normalizado aos poucos. Outro ingrediente para o otimismo, segundo Sabella, é o investimento “crescente” por pecuaristas em tecnologia na produção. Para ele, o preço ascendente da carne bovina e o semiconfinamento são fatores que animam o mercado.
(*) Viajou a convite da Texto Assessoria de Comunicações