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| .Economia e Negócios |
Elza Fiuza/ABR
O ministro Mantega minimizou a queda do PIB
RIO - A economia andou para trás em 2009. Mas o reflexo aqui da pior crise mundial desde o colapso de 1929 foi bem menor que o esperado. A queda de 0,2% frente a 2008, quando o país crescera 5,1%, conforme divulgou nesta quinta-feira (11) o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi até considerada um bom resultado diante das previsões do início de 2009 de retração de até 3% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos pelo país). Desde 1992, último ano do Governo do presidente Fernando Collor, o PIB brasileiro não fechava o ano no terreno negativo. É de R$ 3,143 trilhões o tamanho da economia brasileira. A renda “per capita”, o valor total da economia dividida pela população ficou 1,2% menor, na primeira retração desde 2003.
Apesar do recuo, representantes do Governo seguiram fielmente o “script” segundo o qual o cenário apresentado é um retrato do passado, e adotaram o discurso de que o importante é que a economia brasileira já se recuperou da crise mundial e deve crescer mais de 5% em 2010.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, salientou que o país “fechou 2009 com chave de ouro”. “Mesmo sendo uma retração 0,2%, foi um bom desempenho, porque a maioria esmagadora dos países teve crescimento negativo forte. O Brasil teve um resultado razoável levando em conta que houve a maior crise do capitalismo dos últimos 80 anos”, disse ele.
Já o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, afirmou que os números do PIB foram reflexo do primeiro semestre do ano passado, que sofreu os impactos da crise mundial. Ele ressaltou, porém, que o segundo semestre de 2009 foi bom e que a expectativa é que o país cresça, neste ano, entre 5,2% e 5,5%.
Mantega, por sua vez, foi mais otimista e apostou num crescimento sustentado de 5,7% lembrando que “a crise ficou para trás”. “A indústria tem condições de aumentar a produção e atender plenamente à demanda. O vigor da economia foi retomado e o crescimento é sustentável”, afirmou o ministro da Fazenda, que tem feito questão de dizer que não há pressão inflacionária que justifique uma possível alta dos juros no país.
Apesar de soma de bens e serviços ter caído no ano, no quarto trimestre o país já estava crescendo a pleno vapor. A alta foi de 2% frente ao terceiro trimestre, o que indica expansão anualizada de 8,2%. Contra o mesmo trimestre de 2008, a alta foi de 4,3%.
“Considerando a dimensão da crise mundial, esse desempenho não é, de todo, uma má notícia. No quarto trimestre de 2009, a economia já superava em 0,7% o nível registrado no terceiro trimestre de 2008 (antes dos efeitos da crise global), constituindo-se assim em novo patamar máximo de produção”, afirmou Silvio Sales, economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Mesmo com a estagnação vivida em 2009, as famílias brasileiras sentiram pouco a crise, comparando com outros momentos da história recente, de acordo com os números das contas nacionais. O consumo das famílias avançou 4,1% no ano, depois de já ter subido 7% em 2008, na sexta alta seguida. E os serviços, que representam quase 70% da economia, cresceram 2,6%. “O crescimento do consumo das famílias foi impulsionado pela expansão da massa salarial e também pelo aumento do crédito. Além disso, as desonerações feitas pelo Governo (em eletrodomésticos da linha branca, em materiais de construção e em automóveis) e a atuação dos bancos públicos ajudaram”, disse a gerente de contas trimestrais do IBGE, Rebeca Palis.
A explicação para o ano perdido veio da indústria. A atividade recuou 5,5%, numa queda que não era vista desde 1990, ano do confisco do Plano Collor. Na agricultura, outro dado negativo. As chuvas agravaram a situação do campo, que já sofria com a queda das exportações com crise mundial, fazendo a produção do setor cair 5,2%, o pior resultado desde 1986.
Na conta dos investimentos, a retração também foi a maior em 19 anos. O recuo chegou 9,9%. Mas, assim como puxou a economia para baixo no ano, o investimento levantou o país no último trimestre. A expansão de 6,6% frente ao terceiro trimestre é a maior desde o quarto trimestre de 2005, lembra o economista Paulo Levy, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea): “E é bem mais alta do que a observada no ciclo recente de expansão entre 2006 e 2008”.
Na indústria, o mesmo movimento. O crescimento frente ao terceiro trimestre foi de 4%, indicando recuperação forte, que rebateu no resto da economia, fazendo o PIB crescer 2% no fim do ano. Embalado no bom ritmo dos últimos meses de 2009, o país deve crescer 6% este ano, preveem os analistas.
Outro movimento que foi diferente do que se via até 2008 foi a contribuição da demanda externa (exportações menos importações). Ela foi positiva pela primeira vez desde 2003. Sem ela, o PIB teria caído 0,3%. O acúmulo de estoques no fim de 2008 também freou a produção. Sem esses estoques, o PIB poderia ter crescido mais de 1%. Entre os setores econômicos, a intermediação financeira ocupou o primeiro lugar entre as maiores altas. Subiu 6,5%.