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Taxa menor leva cliente de banco para cooperativa

Somente entre 2006 e 2008, 1 milhão de pessoas ingressaram em uma cooperativa de crédito. Ao final do último balanço, eram, ao todo, 4,2 milhões de cooperados, contra apenas 1,6 milhão em 2002

Luciana Rezende - Repórter - 17/01/2010 - 09:35

Toninho Almada

Jaires

Jaires Gomes migrou de banco para cooperativa em busca de taxas menores

Cansado de ser mal atendido nos bancos tradicionais, enfrentar filas nas agências e ainda pagar caro para manter uma conta corrente ou adquirir um empréstimo, o contador Jaires de Souza Gomes transferiu praticamente toda sua movimentação financeira para uma cooperativa de crédito. Atualmente, dois anos após a associação à instituição formada por membros de sua categoria profissional, ele garante não ter se arrependido. “Estou bastante satisfeito, especialmente pelo atendimento, que é mais individualizado. As taxas de juros também são mais interessantes, e as tarifas mais baixas”, avalia. Ele observa que não sabe de cor os valores que paga, mas afirma que, sempre que faz uma pesquisa, se certifica de que gasta menos na cooperativa. Assim como Gomes, milhares de outros brasileiros estão fazendo essa mesma comparação. E optando pelas vantagens dessas associações sem fins lucrativos.

 

Somente entre 2006 e 2008, 1 milhão de pessoas ingressaram em uma cooperativa de crédito. Ao final do último balanço, eram, ao todo, 4,2 milhões de cooperados, contra apenas 1,6 milhão em 2002. A carteira de crédito chegou a R$ 22,4 bilhões em junho do ano passado. O montante é 34,8% maior que o registrado em janeiro de 2008. Os depósitos também apresentam expansão desde 2004, chegando a R$ 21,4 bilhões ao final do segundo semestre de 2009. “A procura pelo crédito por meio das cooperativas tem mantido um ritmo de crescimento constante nos últimos anos. Os juros bem abaixo da média do mercado ainda são o principal atrativo. Hoje é possível encontrar diferenças entre as taxas das cooperativas e dos bancos tradicionais que vão de 20% a 60% ao mês, dependendo do tipo de empréstimo”, afirma o especialista em Crédito da
Organização das Cooperativas do Brasil (OCB), Sílvio Giusti.

 

Para dar uma ideia da distorção, ele cita um estudo da entidade, realizado no final de 2008, que mostra que a taxa média praticada pelas cooperativas no empréstimo pessoal era de 2,3% ao mês, enquanto os grandes bancos cobravam 5,6%. No cheque especial, os juros para o cooperados eram de 6,5% contra 7,9% dos clientes bancários. A taxa mensal do cartão de crédito estava em 6%. Para os banqueiros, os consumidores pagavam 12%, em média. O ranking do Banco Central, de dezembro do ano passado, comprova a grande diferença entre os valores das cooperativas e as demais instituições financeiras. As taxas do Banco Cooperativo do Brasil (Bancoob), cujo controle acionário pertence a 14 cooperativas centrais de crédito, só não são menores que as dos pequenos bancos. Em relação aos demais, elas ganham de longe.


 
Outro atrativo é o atendimento mais personalizado e o fato de exigirem menos garantias para liberar o crédito. Até porque, além de conhecerem bem a população com a qual atuam, os cooperados são os próprios donos da cooperativa. “O custo menor e o melhor relacionamento com o cidadão são os segredos. A cooperativa não tem clientes, tem associados”, comenta o presidente da Cooperativa Central de Crédito Rural de Minas Gerais (Crediminas), Heli Oliveira Penido. Giusti acrescenta que o papel da cooperativa é ter o dinheiro na hora em em que o associado precisa. Postura que contribuiu para o maior crescimento do setor a partir do segundo semestre de 2008. “Com a retração do crédito no mercado, após o início da crise financeira, as cooperativas passaram a ser mais procuradas. Já estavam crescendo. Com esse vazio, passaram a ser a alternativa de crédito. Daí o grande salto na carteira”, observa. A inadimplência se manteve sob controle, no patamar de 1,83%.


 
A partir daí, o sistema aproveitou para avançar. “O brasileiro agora está conhecendo realmente o cooperativismo de crédito, que é forte em outros países do mundo, como os europeus. Estão percebendo os diferenciais em relação aos grande bancos. Os serviços são os mesmos, com o custo mais baixo. Além de que a sobra – cooperativa não tem lucro - é dividida entre os cooperados”, pondera o diretor-presidente da Central das Cooperativas de Economia e Crédito de Minas Gerais (Cecremge), Luiz Gonzaga Viana. Ele observa que a associação, que tem 15 anos, não tinha reservas há alguns anos. Em 2009, no entanto, atingiu excedente de R$ 800 milhões.


 
A Cooperativa de Economia e Crédito Mútuo dos Funcionários da Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais (Coopsef) também superou o desempenho de outros anos. A entidade não fechou o balanço, mas a previsão é de que o valor bruto das sobras fique próximo de R$ 7 milhões. De acordo com o diretor financeiro, Antônio de Ávila e Silva, será o melhor resultado da história da Coopsef. “Atribuo isso a um rigoroso controle das despesas e incentivo aos associados a centralizarem suas operações aqui. Um grande número de pessoas reconheceu os benefícios da cooperativa e transferiu suas dívidas de outros bancos, onde são cobrados juros exorbitantes”, avalia.


 
Ele explica que, como não visa ao lucro, a cooperativa não pratica altos spreads (diferença entre taxa de captação e de empréstimo), o que se reverte em favor do bolso do consumidor. “No final, eles são beneficiados em dobro, pois pagam juros menores que a média do mercado e ainda recebem de volta parte do que pagaram”, completa. A distribuição dos excedentes da Coopsef em 2009 será definida na Assembleia Geral Ordinária marcada para 1º de fevereiro. Em geral, parte vai para o capital da cooperativa. O restante é rateado entre os cooperados.


 
Para o auditor fiscal Francisco Lourenço Dias, essa é uma das principais vantagens em ser um cooperado. “Considero a cooperativa melhor que os bancos tradicionais em todos os aspectos: atendimento, rapidez, taxas de juros, tarifas. E maior benefício é que parte do lucro vai para a cota do associado, especialmente para quem utiliza mais os serviços. Atualmente, eu só tenho conta em outro banco porque sou obrigado, para receber o salário. Se o contracheque também pudesse ir para a cooperativa seria o ideal”, ressalta.


 
Dias conta que utiliza tanto as aplicações oferecidas pela instituição quanto as opções de empréstimos. “E a liberação do dinheiro é bem mais rápida e barata. Para o sítio que comprei há alguns anos, peguei o recurso na cooperativa, pagando em 30 vezes”, reforça. Já o contador Jaires de Souza Gomes diz que, por enquanto, não pretende passar toda sua movimentação financeira para a associação de crédito da categoria. “Ainda mantenho conta também em um banco porque faltam alguns serviços na cooperativa. No banco em que tenho conta, por exemplo, posso usar dez dias no cheque especial sem juros”, conclui.

 

Fusão amplia fatia no crédito

 

Elas são pequenas. Sua participação no setor financeiro no Brasil ainda não ultrapassa 2%. Mais da metade das operações de crédito realizadas por seus associados girava em torno de R$ 3 mil, em 2008. No entanto, as cooperativas de crédito têm grandes ambições. A meta do sistema é ampliar sua fatia de mercado para 10% em, no máximo, dez anos. A demanda já está em expansão – a carteira de crédito das cooperativas mantém evolução média de 30% ao ano, desde 2004, principalmente em função da prática de taxas de juros mais baixas. Porém as organizações sabem que, para “roubar” consumidores dos bancos que atuam no país, é preciso se profissionalizar mais e se fortalecer internamente. A alternativa escolhida são as fusões entre empresas. Hoje ocorrem, em média, dois processos por mês no país. E eles deverão se intensificar nos próximos cinco anos, especialmente nas regiões Sul e Sudeste.

 

Desde 2001, o número de cooperativas de crédito segue estável, apesar do salto no total de associados. Naquele ano, eram contabilizadas 1.379 associações. Em 2003, havia 1.454. No balanço de junho de 2009, eram 1.453 cooperativas. A tendência agora é de redução acentuada desse número. A estimativa é que restem cerca de 1 mil ao final das aglutinações.

 

O marco desse processo aconteceu em outubro de 2007, quando foi criada a maior cooperativa de crédito dos profissionais da saúde no país, em Minas Gerais. O Sicoob Credicom nasceu da fusão entre Credicom e Unicred-BH e somou uma carteira com R$ 300 milhões em ativos, R$ 40 milhões de patrimônio de referência e R$ 79 milhões em operações de crédito. O total de cooperados atingiu 23.500.

 

A partir daí, a Credicom prosseguiu com a estratégia de crescimento e se uniu às Unicreds Montes Claros, Vale do Aço e Inconfidentes. No final de 2009, aliou-se à Cooperativa de Economia e Crédito Mútuo dos Servidores do Sebrae (Sebraecoop). São 346 cooperados que se integraram aos mais de 29 mil da Credicom. Em texto publicado em seu portal, a Credicom diz que a união é o “caminho natural de duas cooperativas que estão na mesma direção, rumo ao profissionalismo e ao fortalecimento do cooperativismo de crédito”. A iniciativa ainda abriria novas perspectivas e possibilidades para a instituição e seus cooperados, segundo a nota.

 

A experiência da mineira ilustra o objetivo das fusões no associativismo de crédito, de acordo com o especialista no assunto da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Sílvio Giusti. “As aquisições são o caminho para alavancar os negócios. Representam ganho de escala, redução de custos e melhores resultados para as cooperativas, que precisam ser mais robustas para expandir o patrimônio líquido, alavancar recursos e atender o associado cada vez melhor. Atuar no financiamento imobiliário, por exemplo, exige um patrimônio muito elevado, que as cooperativas ainda não possuem”, enfatiza. Giusti esclarece que outros países do mundo passaram pelo processo e servem de inspiração para o modelo brasileiro. “Quando o cooperativismo de crédito nasceu na Alemanha, na década de 40, eram 12 mil cooperativas. Hoje existem 1.200, após um período fortíssimo de fusões”, exemplifica.

 

O diretor-presidente do Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado de Minas Gerais (Ocemg), Ronaldo Scucato, lembra que as aglutinações são fundamentais para o crescimento do setor, em função da necessidade de novos investimentos. “Ampliar a gama de produtos e serviços financeiros para a população exige um alto volume de recursos em tecnologia, processos, logística. Há uma escala mínima que uma cooperativa precisa atingir para operar. Por isso, estão se unindo e se tornando regionais ou microrregionais”, revela. Pelos cálculos de Scucato, com menos de 15 mil associados uma cooperativa não atinge competitividade para brigar com os bancos privados.

 

No entanto, essa ainda é a situação de, pelo menos, um terço das cooperativas de crédito de livre admissão no país. Essa modalidade é a que admite como cooperado qualquer pessoa, independentemente da categoria profissional ou outra especificidade. Antes de 2004, só eram permitidas associações de grupos com perfis semelhantes (médicos, contadores, moradores de uma região, trabalhadores de uma empresa etc). Boa parte do setor era composto pelas cooperativas rurais. Scucato conta que, após a autorização para a constituição do formato de livre admissão, a migração aconteceu de forma acelerada. “A cooperativa ganha espaço no mercado. Ela está livre para captar mais cooperados ”, comenta.

 

O diretor administrativo da Cooperativa de Crédito de Morada Nova (Credinova), Carlos de Paula Coelho, conta que a transformação da associação, na Região Central do estado, de rural para livre admissão foi bastante positiva. “Fomos a primeira de Minas e uma das primeiras do Brasil a mudar de modalidade. E, na análise dos últimos quatro anos, crescemos acima da média das demais cooperativas mineiras, a uma taxa de 40% ao ano, aproximadamente”, relata.


Segundo Coelho, com a livre admissão, a Credinova conseguiu estender os benefícios, antes limitados ao setor rural, a toda a população da região. “Temos agência hoje em municípios onde não há outros serviços financeiros. Então, pagamos os aposentados, realizamos microcrédito a empresários etc. Só no município de Morada Nova, temos mais de 50% das operações de crédito. Ultrapassamos o Banco do Brasil, que é a outra instituição que atua aqui. Antes, estávamos muito longe deles”, pondera.


Scucato, da Ocemg, explica que, para se associar a essas cooperativas, basta comparecer a uma delas, apresentar a documentação necessária e investir uma cota de capital que varia por organização. Os valores são pequenos, indo de R$ 20 a R$ 150. De 2004 para 2008, conforme dados da OCB, o total de cooperativas rurais, no Brasil, caiu de 475 para 379 (-20,2%). No mesmo período, as de livre admissão saltaram de uma única para 153.

 

Ao mesmo tempo em que ampliam as possibilidades de admitir novos associados, as cooperativas também expandem o número de pontos de atendimento. Desde 2001, o número mais que dobrou, passando de 1.344 para 2.729. “São estruturas enxutas e podem se multiplicar a uma velocidade impressionante para melhor atender o cliente. É o que ocorre em países em que o cooperativismo de crédito representa uma grande fatia do mercado, como França (43%) e Alemanha (21%)”, observa Giusti.

 

O presidente da Crediminas, Heli Penido, acrescenta que esse fortalecimento contribui para a melhor gestão e maior segurança do setor. “Hoje há regulamentação própria para as cooperativas. Elas são controladas e fiscalizadas de perto pelas centrais e pelo Banco Central. O que praticamente anula risco de quebras e de prejuízo aos cooperados”, conclui. E o resultado anual da cooperativa é rateado com os associados.

 

 


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