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Frederico Haikal
Breno escuta atentamente as histórias do avô, o ex-prefeito Jorge Carone
Muitas décadas separam a militância estudantil dos tempos de ditadura (1964-1985) da militância estudantil dos dias atuais. Nos anos de chumbo, a mobilização era politizada, contra um inimigo comum - o governo militar. Hoje, porém, muito mais do que palco para a defesa de ideologias, os diretórios e grêmios estudantis viraram trampolim para alcançar projeção e, quem sabe, consquistar um mandato eletivo. Não é por menos que nas principais instituições de ensino superior da capital há braços dos maiores partidos políticos do país -PT, PMDB e PSDB.
O interesse pela política estudantil ainda na adolescência, em muitos casos, ocorre por influência direta ou indireta de familiares, cujos sobrenomes já ganharam destaque no cenário. Casos que exemplificam: o neto do ex-prefeito de Belo Horizonte Jorge Carone, Breno, é presidente do PMDB Jovem. O filho do deputado federal e presidente do PSDB, Narcio Rodrigues, Caio, integra o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da PUC-Minas.
Breno Carone, 31 anos, iniciou sua militância estudantil bem cedo, mais precisamente aos 17 anos, inspirado na carreira política do pai, Jorge Orlando Flores Carone, já falecido, e do avô, Jorge Carone. Enquanto o avô foi prefeito da capital mineira - cassado em janeiro de 1965, após o golpe militar do ano anterior, - o pai foi deputado.
“Me candidatei pela primeira vez aos 23 anos, quando Maria Elvira foi candidata a vice do João Leite, há oito anos”, conta Breno, referindo-se à eleição municipal de 2004. “Eu apoio, ele tem futuro”, diz, orgulhoso, o ex-prefeito, sobre as chances do neto na seara política. Em seguida, Carone acredita que não há muita diferença no movimento estudantil atual e o de tempos idos. “Estudantes são sempre a mesma coisa, são idealistas”.
Suplente de vereador em Brumadinho (Região central), Breno trancou a matrícula do curso de Direito. O Diretório Acadêmico ficou para trás. Hoje, ele preside a Agência de Desenvolvimento Regional do Vale do Paraopeba, não pretende se candidatar, mas tem pretensões políticas para este ano.“Vou trabalhar pela eleição do ministro Hélio Costa ao Governo de Minas”.
Em trilha semelhante à de Breno está o filho do presidente estadual do PSDB mineiro. Caio Narcio Rodrigues, 23 anos, atuante no DCE da PUC. Curiosamente, a gestão dele foi conquistada com um discurso de apartidarização do Diretório. Mesmo com a vitória, ele garante que não entrou na disputa com segundas intenções.
“Disputamos o DCE contra a militância do PCdoB e do PT e tomamos (o comando) com um movimento pregando a apartidarização”, conta ele, estudante do sétimo período de Ciências Sociais, que já fez cursos também na Sorbonne (Paris). “Apesar de admirar meu pai, não tenho intenção de projetar-me em uma carreira política”.
Questionado sobre uma eventual carreira política do filho, Narcio Rodrigues disparou, em tom de brincadeira: “Espero que não. Mas é ele quem decide”.
Muitos estudantes atualmente se inspiram em um parlamentar que rapidamente alçou voo político, impulsionado pela militância estudantil no UNI-BH. Miguel Corrêa Jr. foi eleito para o primeiro mandato como deputado federal, em 2006, quando tinha apenas 28 anos. Antes, ocupou uma cadeira na Câmara de Belo Horizonte.
“Quando conheci um pouco da história da ditadura, aos 14 anos, me apaixonei. Sempre fui líder em grêmio e, na universidade, trocava muitas ideias com o Reginaldo Lopes, que era do DCE de São João Del Rei”, contou o ex-militante estudantil.
Lopes, também deputado federal, mas em seu segundo mandato, é hoje presidente do PT mineiro e teve apoio de Corrêa em sua primeira campanha por uma vaga na Câmara federal, em 2002.
“Meu pai queria que eu fosse advogado e eu fiz Comunicação. Acho natural que o jovem militante estudantil participe da política partidária. É um espaço para discussão de novas ideias”, considera Corrêa, entusiasta da candidatura presidencial de outra militante estudantil, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.
Espelhando-se na história de Miguel Corrêa surge a figura de Daniel Alves, presidente do DCE da Newton Paiva. “Miguel Corrêa fez uma transformação no movimento estudantil em Minas gerais. Conversei muito com ele já. Ele nos orienta bastante”, derrete-se o estudante.
Mesmo sem filiação partidária, Daniel Alves não teve dúvidas em aceitar um convite de Miguel Corrêa para apoiar formalmente a candidatura de Marcio Lacerda à Prefeitura de Belo Horizonte, nas últimas eleições.
Apesar de defender a apartidarização do movimento estudantil, o presidente do DCE da Newton justifica que o apoio a Lacerda foi uma decisão acertada. “Naquele momento, achamos que era melhor ajudar o Lacerda”.
O atual prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB), também começou sua trajetória política ainda jovem. Lacerda foi preso e torturado na época da militância estudantil, em plena ditadura. Até se eleger chefe do Executivo municipal, dedicou-se à vida empresarial. Só em 2003 ingressou na carreira pública ao assumir a função de secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional, na gestão do então ministro Ciro Gomes, hoje deputado federal. Em 2007, a convite do governador Aécio Neves (PSDB), Marcio Lacerda assumiu a gestão da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais. Em outubro de 2008, viveu um dos momentos marcantes da campanha pela Prefeitura de Belo Horizonte, quando chorou ao relembrar sua época de militante estudantil ao receber o apoio de vários estudantes, integrantes de DCEs, à sua candidatura.
O DCE da Fumec também se autodenomina apartidário, mas funciona sob influência do deputado Miguel Corrêa. Quem conta é o presidente, Uirislan Schieber, 29 anos, estudante de Turismo.
“Sempre trabalhei com militância estudantil. Vi o trabalho que o Miguel Corrêa fez no UNI-BH pelos estudantes”, diz.
Questionado sobre a polêmica de um DCE posicionar-se ou não a favor de um candidato em um período eleitoral, a exemplo do que ocorreu com Lacerda, Schieber disse não ver problema.
Um outro exemplo de braço partidário na militância estudantil vem do DEM. O presidente da Juventude Democratas em Minas, João Victor Guedes, 24 anos, estudante de Economia, já foi integrante do DCE da Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ). O democrata reclama do aparelhamento da universidade pelo PT.
“Hoje, o PT está fraco. Antigamente existia um aparelhamento grande”, afirmou o estudante, que iniciou sua militância estudantil ainda em grêmios, aos 15 anos.
"Na época, era o PFL. Cheguei a procurar outros partidos. Procurei o PCdoB e PSB, para conhecer o modelo de atuação, mas encantei-me pela ideologia liberal (do DEM), é o partido mais coerente.”
João Victor garante não ter parentes “infiltrados” em atividades políticas e admite que, realmente, é muito raro um jovem se interessar espontaneamente pelo tema. “Geralmente, quem não tem políticos na família sofre muito porque a família é contra.”
O deputado federal Mário Heringer (PDT) teve como embrião de sua carreira política a militância estudantil e sentencia: “Para sair da política estudantil e entrar na política partidária é um pulo”.
Heringer condena o envolvimento entre partidos políticos e estudantes, com recompensas que vão de cargos a outras benesses como coordenações remuneradas de campanhas eleitorais. “Isso é um desserviço porque, na medida em que os partidos tiram os estudantes de uma zona de desconforto e insatisfação, as coisas ficam fáceis demais e falsas”.
O professor Geraldo Leão, do Observatório da Juventude da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), destaca que a relação entre partidos e estudantes sempre existiu. Mas ele não condena esta relação, pelo contrário, avalia como saudável.
“O estudante continua com a mesma postura crítica, sim, isso depende muito mais da participação, do momento político, do que propriamente do jovem. Isso depende da experiência política que a gente vive. O DCE, hoje, não é menos compensatório do que era antigamente”, diz, lembrando ainda que grêmios e DCEs são as primeiras experiências de participação política as quais os jovens têm acesso.
“É natural que os jovens se aliem a alguma perspectiva política. Não vejo como manipulação. Os partidos que conseguem ter mais acesso aos jovens são mais competentes politicamente”, observa o professor.