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'O jornalista Amaury Machado já caiu de amores por Tia Hortência, seu chapeuzinho e sua sabedoria. Logo que puder, irá a Itabirinha de Mantena para conhecer dois monumentos naturais da cidade: a Tia e a Pedra da Boneca. Se a Tia, que é sábia, adotou a Pedra como madrinha, o intrépido Amaury quer saber o que fizeram para resistir tão bravamente à passagem do tempo. Segundo ele, Tia Hortência deve ser feita do mesmo material que o Doutor Fontes. E, por ser curioso, como todo bom jornalista, pergunta se há relação de parentesco entre os dois. Não há. Nem de parentesco e nem de qualquer outro gênero. Se o bravo discípulo de Samuel Wainer quis insinuar alguma coisa, que retire o corcel da intempérie: Doutor Fontes continua fiel ao molho pardo da Dona Carmem e a Tia Hortência - desde que enviuvou - jamais voltou a olhar um homem com segundas intenções.
As convergências resultam de um tipo especial de visão do mundo, que se resume em poucas frases: não dar murro em ponta de faca, ceder ao Imprevisível de Almeida, tratar loucos como se fossem gênios e gênios como loucos e amar a vida sem fazer propaganda dos altos ou se queixar dos baixos.
Respondendo a outra pergunta do Amaury, Tia Hortência não dá consultas e nem escreve arrazoados, como o advogado Fontes, mas se o visitante for simpático e razoavelmente inteligente, não se furtará a comentar as angústias, conflitos e incertezas que ele lhe traz. Há algum tempo, esteve com ela a jovem Conceição Imaculada, cujo nome não correspondia inteiramente à sua agitada vida afetiva. Dividida entre dois amores e insegura quanto ao caminho a trilhar, estava na fase do vai-não-vai, quando tudo em volta parece escuro e a vítima sente desejo de se esconder sob a cama e esquecer que o mundo existe. Tia Hortência começou por sugerir que deixasse o abrigo: "Em qualquer hipótese, minha filha, em cima da cama é mais confortável. Quanto à escuridão, aprendi que - em lugar de passar meses batendo cabeça e brigando com fantasma - o jeito mais simples de sair do escuro é acender a luz. Ou riscar um fósforo". Com ela é assim. Tudo claro, cristalino, direto. Só que Conceição não entendeu. Deitar na cama foi conselho que não deixou dúvida. Mas como o simples ato de riscar um fósforo poderia iluminar a sua vida? Tia Hortência preferiu não explicar que se tratava de um símbolo, metáfora chinesa e antiga. Só sugeriu que, com sol ou chuva, Conceição devia fazer uma caminhada diária à Pedra da Boneca e ficar lá, sozinha, por meia hora, para meditar sobre o caminho a seguir. "Ah, já entendi. É feito promessa, pra pagar milagre. E vou ter que cumprir quanto tempo, Tia?" Não era esse o espírito da coisa, mas Tia Hortência não teme os preconceitos:
"Você começa amanhã e faz as caminhadas até que o coração lhe diga qual é a melhor escolha, o melhor caminho. Aí, é só caminhar". A simplicidade pareceu suspeita, mas Conceição não estava em condições de discordar. Tanto que já saiu para a base da Pedra da Boneca. Desde então, esqueceu os dois namorados e conheceu um terceiro, atrás da pedra. E até hoje, dia após dia, continua a subir.
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