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Depois da tempestade
 


O amor não tem prazo de validade e a dor da perda afetiva não tem data marcada para acabar. Elza, 42 anos, está passando por isso e gostaria de saber quanto tempo vai durar o luto pela relação que se extinguiu da noite para o dia, sem que nada anunciasse o fim. Até hoje não entende o que aconteceu, "tudo ia muito bem". "Desde o início, parecíamos feitos um para o outro. Éramos o que chamam de "almas gêmeas". Muitas vezes chegamos a dizer que jamais seríamos felizes com outras pessoas. E ainda creio nisso, mas ele mudou de opinião da noite para o dia, sem razão. De repente, virou outra pessoa".
Elza parece ser mais uma vítima de certas ilusões românticas que sobreviveram à passagem dos séculos. Não há crença mais atrapalhada do que essa história de "almas gêmeas, que nasceram uma para a outra". Seria maravilhoso se fosse assim. Mas, na vida real, isso não existe. A atração que aproxima duas pessoas não significa que sejam parecidas ou que se completem perfeitamente. Também não é verdade que os contrários sempre se atraem. Todos esses conceitos, herdados de outros séculos, são muito bonitos no papel ou nos lábios dos conselheiros matrimoniais. Mas a vida real, feliz ou infelizmente, não se ajusta a esses sonhos.
Alguns, de tão apaixonados, tentam se modificar ou querem mudar o parceiro ou a parceira, pensando que assim vão viver felizes para sempre. E essa estratégia pode ser o princípio do fim: um dia, ao acordar, o menino ou a menina descobre que embarcou em fantasia irrealizável. Em primeiro lugar, ninguém muda a si mesmo com facilidade ou consegue mudar a outra pessoa. Enquanto mudar significa abrir mão de desejos e aspirações pouco importantes, tudo funciona bem. Mas, se você vai ao fundo e chega ao essencial, a sensação da perda de identidade pode ser fatal para a relação amorosa. Digamos que o cara seja doentiamente possessivo e a moça não suporte a suspeita e a permanente vigilância, mas decida fazer enorme esforço para aceitar a loucura do parceiro. Até quando aceitará essa violência, sem enlouquecer também?
Ou, invertendo os polos, se o namorado tem visão crítica da vida pública e ela quer ser vereadora ou deputada estadual, como exigir que a acompanhe nas reuniões políticas? Em algum momento, o rapaz irá se sentir violentado e dirá adeus, mesmo que goste dela. A crença de que o amor é pura magia, que nasce de um golpe de sorte e dura para sempre, é das causas mais comuns de rompimento. A mágica se desfaz quando percebem que não conseguem acertar o passo.
Ou um, por preguiça, insegurança ou cansaço, decide que a separação dói menos que a convivência frustrante. Se soubessem que amor é aprendizado e construção, não cometeriam a tolice de apostar nas tais "almas gêmeas" ou acreditar que nasceram um para o outro e serão felizes para sempre. No caso de Elza, a solidão e a tristeza aconteceram de forma tão brutal porque apostou na fábula, sem perceber que as diferenças vinham solapando as bases do relacionamento. E é provável que o namorado tenha embarcado na mesma ilusão. Agora, com a tempestade, veio a dor, e alguma coisa aprenderam: a dor ensina que o amor não nasce pronto e nem vacinado contra os embates da vida real.

Postado em 3 de Setembro, 2010
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