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Discutir de novo os espaços públicos que as mulheres conquistam hoje, nas universidades, nas empresas, nas instituições governamentais ou na mesa do bar é sempre um risco: qualquer palavra mal colocada é como enfiar a mão em casa de marimbondos. A reação do leitorado é imediata, muitas vezes passional e nem sempre gentil. Certos leitores, atropelando os dados da realidade, ainda negam às mulheres o direito de crescer e chegam a afirmar que temem pelo equilíbrio emocional das próximas gerações.
Um deles escreveu, há tempos:
- Os meninos do futuro não terão mães, como antigamente. Serão todas gerentes e diretoras, cuja experiencia foi adquirida nas empresas e não inclui o dom da sensibilidade, insubstituível para entender e criar um filho.
Outro leitor foi ainda mais longe, pois teme que as mulheres do futuro - para realizar seus objetivos profissionais - abandonarão de vez a ideia da maternidade, serão tão duras e masculinas quanto os homens e, na maturidade, "vão sofrer horrores, por essa renuncia à sua missão mais importante, que é ter filhos".
Mas não é isso que vemos hoje, meninos.
Centenas, milhares de mulheres estão ocupando cargos de direção, comandam equipes masculinas e nem por isso agem como se os filhos fossem seus subordinados funcionais. E outras centenas, milhares, decidem que não tem vocação, interesse ou habilidade para ser mães, sem que isso signifique perda da feminilidade ou da alegria de viver.
Esse discurso ameaçador já não assusta as meninas, que ouviram coisas assim em casa, desde pequenas, e resistiram bravamente à pressão para que repetissem a história de vida de suas mães e tias. Há leitoras que escrevem para reproduzir o discurso ameaçador de certas mães, que auguram desastres e tragédias para as filhas que se libertam daquele estreito passado, que considerava marido e filhos indispensáveis, para provar à sociedade que as meninas eram saudáveis, normais e honestas. |Embora essas mães não tenham sido nada felizes, pois copiar rigidamente o passado é a maior tristeza, de tanto ouvir que mulheres realizadas profissionalmente perdem a sua essência, há meninas de hoje que embarcam nessa anacrônica visão do mundo e são mais radicais que qualquer machão.
Parece incontestável que - ocupando ou não cargos cada vez mais altos - homens e mulheres são e serão diferentes, em matéria de percepção, sensibilidade, talento para certas áreas e habilidade no trato com as pessoas.
Chefiar meia dúzia ou mil e quinhentos funcionários não leva a mulher, necessariamente, a absorver as características masculinas mais desagradáveis, como a agressividade, intolerancia, autoritarismo e arrogancia. Dona Dilma Rousseff, a quem são atribuídas algumas dessas características, pode ser uma "dama de ferro", como dizem. Mas, se ela é assim, a escolha foi dela. E as meninas não precisam copiar esse péssimo exemplo.
Por outro lado, essa conversa sobre a "essencia feminina", que as mulheres perderiam devido ao sucesso profissional, não passa de chantagem antiga. Seja lá o que for essa "essência", a mulher que possui tal qualidade não a perderá pelo simples fato de ser inteligente e competitiva. Basta que ela não caia na tolice de pensar que a sensibilidade, o humanismo e o respeito pelas pessoas atrapalham o sucesso de alguém.
Resumindo, mulher não tem que ser homem, para provar que é capaz, assim como o homem não tem que ser mulher, para expandir sua sensibilidade.
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