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Com a advertência de que pode não ser ela a pessoa de quem se falou aqui há algum tempo, mas também com a certeza de que foi personagem de duas crônicas, a menina que o ex-namorado apelidou de Bebel Jabulani finalmente resolveu comparecer à esquina. A Copa do Mundo acabou, mas a menina está bem viva e não admite ser confundida com uma bola que nem serve para ser chutada:
- Não é para me defender - ela faz questão de informar. - Só vou esclarecer que o Rafael Santoro (não é o verdadeiro nome dele, mas se apresentou assim) foi injusto comigo. Aliás, ele sempre foi injusto, ao me julgar infantil, volúvel e inconstante. E "muito enrolada", como adora dizer.
Bebel jura que Rafael, por excesso de impaciência, não suportou esperar que ela resolvesse as questões que a impediam de viver um novo amor. E garante que não é mulher de brincar com sentimentos alheios:
- Sou bastante adulta para saber que isso não se faz. Acontece que ele jamais compreendeu as razões da minha hesitação, os problemas que preciso superar e as dificuldades naturais de uma grande mudança de vida. E isso não é motivo para me chamar de Jabulani, a bola maldita da Copa. Não sou Jabulani.
Não está arrependida, a Bebe, mas quando expõe suas razões - relacionadas com o passado e o medo de trocar a segurança do presente pelas incertezas do futuro - qualquer um é levado a pensar na palavra "pentimento".
Grandes artistas do passado, ao pintar uma futura obra-prima, se de repente descobrissem que estavam no caminho errado abandonavam o esboço sem hesitar e iniciavam outro, utilizando a mesma tela. Assim, esses primeiros traços e as manchas coloridas desapareciam sob a nova camada de pintura, para que outra obra-prima surgisse, no lugar daquela que nunca chegou a existir.
Essa camada desprezada e esquecida era chamada de pentimento, que significa arrependimento e, em outro contexto, pode traduzir uma sensação de culpa, vergonha ou remorso. Aqui, entretanto, não se trata de culpa, vergonha ou remorso.
Bebel conta que já estava cobrindo as manchas passadas e quase pronta para pintar o futuro, quando Rafael desistiu de esperar. Era sólida a certeza dela de estar criando outra Bebel (ou libertando aquela que nunca ousou voar), mas o tempo de Rafael era outro. Seus argumentos são poderosos:
- Sempre que julgamos encerrar uma etapa de nossas vidas ou estamos perto disso, há um conflito entre velhos valores, crenças, dores e sonhos e o novo caminho que escolhemos. E enfrentar o passado produz inquietação, incerteza e reflexões que colocam em xeque tanto o que já vivemos quanto o que vamos viver.
Bebel tem razão, e essa razão vale para todo mundo.
Diante de grandes mudanças, somos a mesma pessoa e já não somos mais. E quase sempre nem sabemos falar disso com os outros, envolvidos que estão com as suas próprias dúvidas e inquietações. O problema é que Bebel não soube ou não quis falar do tumulto nem com o próprio Rafael.
- Acho que sou orgulhosa demais - ela quase reconhece, mas logo arrisca outra explicação: "Ou então o nosso amor é que não era tão grande assim".
O fato é que erraram os dois, um privilégio dos humanos: ela, por minimizar a camada abaixo da superfície, pensando que seria fácil cobri-la; ele, por desejar um quadro novinho em folha, uma obra-prima criada às pressas.
Gente é assim mesmo: somos eternos discípulos do erro, mesmo quando já aprendemos a pintar.
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