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Tião Martins
No tempo dos coitadinhos
 


Toda cidade, por menor que seja, tem garotas disponíveis para acompanhar um cavalheiro, mesmo que ele nem seja assim tão cavalheiro. E elas já acompanharam tantos, profissionalmente, que hoje se apresentam como "acompanhantes", mesmo que esse ofício não esteja previsto na declaração anual de renda.
Nesse departamento, Montes Claros, que sempre foi moderninha e avançada, chegou a importar acompanhantes do mais alto nível, como contam os nativos de maior idade. O calor intenso e o dinheiro disponível se juntavam para fazer da cidade um centro importante de acompanhamento.
Os endinheirados, vindos de toda a região Norte de Minas, desembarcavam periodicamente nas melhores casas do ramo e não poupavam cruzeiros velhos ou novos, em troca de uma boa companhia. Naquela época, dizem os saudosistas, só andava sozinho quem sofresse de alergia por moças.
E, para os eternos desprevenidos em matéria de grana, restava sempre a possibilidade de que uma das moças cometesse um gesto de generosidade e misericórdia.
As meninas daquele tempo não eram avarentas. Ou nem todas eram. Trabalhavam por dinheiro, sim, pois ninguém é de ferro. Mas também sentiam pena dos garotos, encostados no balcão até o último sopro do sax ou o derradeiro acorde da viola. Esses desvalidos, com a boca seca e cara de coitadinhos, eram mestres em tocar o coração das moças.
Após a longa noite inteira de trabalho e enquanto os músicos recolhiam os instrumentos, as moças ficavam por ali, sem sono. E havia sempre duas ou três mais atiradas e generosas. Estas atravessavam o salão e pescavam os coitadinhos, porque ninguém é de ferro e, naquela época, as acompanhantes também gostavam de companhia.
Hoje, devido à intensidade da competição (e à globalização da economia, que é o bicho-papão dos tempos modernos), a profissão de acompanhante ficou mais sofisticada. As moças já não se chamam Emerenciana, Josefina ou Julita. E você jamais encontrará uma que considere natural e doce o apelido de "Maria Tomba-Homem".
Além disso, operam via celular, investem parte do capital em academias, anunciam nos jornais, colocam avisos na web, enviam e-mails e aguardam, em casa, que apareçam os corações solitários.
Ainda esta semana, três acompanhantes estacionadas em Montes Claros dispararam e-mails para clientes, turistas e colunistas do Brasil inteiro (é a tal globalização), oferecendo seus serviços pela módica e padronizada quantia de 70 reais, com a qual o cidadão adquire 60 minutos de companhia.
Andressa, Geovana e Gabriella informam os números dos seus celulares e não entram em detalhes a respeito do trabalho, mas oferecem um slogan que é sólida garantia aos turistas e curiosos que visitarem a cidade: "Em Montes Claros, só fica sozinho quem quer". Ou quem não tiver grana no bolso.
O tempo dos coitadinhos acabou. A moda agora é outra. E não há mais espaço nos balcões para que eles se encostem, à espera da felicidade. Com 70 reais no bolso ou um cartão de crédito ativo, você é um sujeito simpático e atraente. E não será surpresa se um amigo contar que Andressa, Geovana e Gabriella exigem do cliente pagamento adiantado, para que os ponteiros do relógio comecem a funcionar.
Se é assim em Nova Iorque, Paris e Istambul, por que não em Montes Claros?

Postado em 9 de Setembro, 2010
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