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O tempo: modo de usar
 


Os estudiosos de Filosofia não se perdem nos labirintos kantianos, mas amadores correm o risco de nunca regressar. Por isso, é uma temeridade falar de Kant para abrir este comentário despretensioso sobre o significado do tempo e do espaço na vida dos seres humanos. Entretanto, após correr tantos riscos, durante três anos e alguns meses, quem ousará criticar você por enfrentar mais um?
Kant diz que não podemos perceber o espaço empiricamente, porque falar de algo exterior a nós leva à representação do espaço, assim como o tempo tem tudo a ver com a nossa interioridade. Resumindo o que não deve ser resumido, temos que o espaço é o que se encontra fora de nós, mas sobre o qual lançamos a nossa percepção do tempo.
Logo, essa percepção será sempre colorida pela impossibilidade de nos deslocarmos para uma posição idealizada, fora e acima do espaço e do tempo. E Kant vai mais longe, ao declarar que tempo e espaço são formas da existência e, paradoxalmente, da inexistência, porque a razão nos ensina que perceber alguma coisa é deixar de perceber todas as outras que se relacionam com ela. Agora, chega de complicações, antes que o tempo e espaço acabem.
Após anos de estudos, Philip G. Zimbardo e John Boyd escreveram um livro intitulado "O Paradoxo do Tempo", no qual propõem uma reflexão sobre esse recurso invisível, sem substancia concreta e capaz, entretanto, de condicionar ou mesmo determinar o que fazemos a cada dia, alguns dos nossos sentimentos mais íntimos e as escolhas mais importantes ao longo da vida. Vivemos sob o chicote do tempo ou correndo atrás da cenoura que o burro de carga persegue. Espertinhos, tentamos enganar o tempo e o espaço com todos os artifícios da moderna tecnologia.
Entretanto, os aviões mais rápidos, a informática, os implantes de cabelo, a cirurgia plástica e outras estratégias semelhantes não acrescentam um minuto sequer ao tempo de sua existência. Só resta a memória, por mais enganosa que seja. A memória é uma belezinha, pois nos dá a ilusão de que vivemos em tempos simultâneos: o presente que escorre e o passado que se congelou (embora a percepção do passado também mude, com o passar do tempo).
Você pode recordar perfeitamente aqueles dois gols de cabeça que marcou em uma pelada imortal. Mas será "perfeitamente"? Ou esses gols ficam mais belos, sofisticados e inacreditáveis, a cada dia?
A verdade, leitor, é que a memória - produto do tempo e da existência - comete mais enganos que acertos, na empreitada da lembrança. Não que você seja mentiroso crônico, aplicado ao embelezamento de ações passadas. A questão é outra: a cada dia que passa, o seu tempo de vida diminui na mesma velocidade. Como você não fará mais gols, belos ou sujos, aqueles dois ganham dimensão mítica.
A verdade é que você usa o tempo que lhe resta (sempre intoleravelmente curto) para recuperar o passado. E, em lugar de receber cada dia como se fosse novo, promissor, você gasta os segundos em recordações banais, arrependimentos inúteis e decisões sobre como viver melhor no futuro. Qual futuro, Mané?
Não há em Kant, Proust ou outro prestidigitador respostas para essas perguntas essenciais sobre o tempo, que é moeda de valor diferente para cada um. Neste campo minado, o fatal paradoxo é que o único tempo que lhe pertence não é seu. Você se tornou escravo dele.

Postado em 12 de Março, 2010
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