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Amor tem que ser grande?
A julgar pelo que dizem as pessoas, quase todas elas, tem sim.
Nunca se viu alguém dizer que deseja viver "um pequeno amor". Como o poeta Vinícius de Moraes, todo mundo está no mundo "para viver um grande amor".
Adolescente, adulta ou mocinha de 90 anos. Empresário, cientista ou jogador de futebol. Políticos e eleitores. Pergunte a eles e, se forem sinceros (já que a sinceridade é virtude escassa nos tempos atuais), darão a mesma resposta: querem viver um grande amor.
Podemos extrair daí algumas reflexões. A primeira é sobre a dimensão ou grandeza do amor. Como é que se mede essa coisa chamada amor?
É comum, entre os namorados, a pergunta "Qual é o tamanho do seu amor por mim?". A vítima, apanhada de surpresa, gasta alguns segundos pensando e, abrindo os braços até o limite, como se quisesse abraçar a autora, responde: "É do tamanho do universo". Trata-se de licença poética, é claro.
Entretanto, qualquer resposta que se der a essa questão nunca poderá ser confundida com a realidade, pois o amante ignora o tamanho, grandeza ou durabilidade do amor. Se o amor fosse geladeira ou máquina de lavar, viria acompanhado de papéis que informam o peso, as medidas, a capacidade e o prazo da garantia.
Mas o amor, pelo que se sabe, não é geladeira, nem máquina de lavar e muito menos um desses aparelhos de TV que estão na moda, os digitais, fininhos e com garantia de perfeição, tanto na imagem quanto no som.
Um grande amor é aquele que promete perfeição e durabilidade, com garantia de troca, se não funcionar bem? Definido assim, qualquer um vai desconfiar. E não há, para o amor, um Código de Defesa do Consumidor, que possa ser usado em caso de engano ou fraude.
Mas e os pequenos amores, como seriam?
Tão simples e naturais quanto aquele matinho ralo que cresce em torno de uma orquídea? Tão resistentes quanto a formiguinha que insiste em escalar a parede, a despeito dos inseticidas? Tão confiante quanto o menininho de três anos de idade que estende as mãos para um desconhecido?
Podemos também imaginar os pequenos amores como pequenos frutos de gestos, olhares e expressões. A mão que toca de leve outra mão, sem fazer alarde. Um inesperado olhar de admiração e carinho. E até algumas frases que não rimam com o momento, mas que são ditas de improviso e falam mais que os grandes discursos e os gestos teatrais.
O contato físico é essencial, nos pequenos amores. A vontade silenciosa de entrelaçar os dedos, quando os amantes estão a meio metro de distancia um do outro. O desejo súbito de dar um beijo na face, sem esperar retribuição. O sorriso espontâneo e cúmplice diante de uma tolice qualquer.
Vai ver que são assim, os pequenos amores, que jamais viram tema de crônica, conto, poema ou romance, porque carecem de discursos, promessas grandiosas, dramaticidade, conflitos, solenidades, reviravoltas e piruetas. Ocultam-se até das palavras, não por medo de que percam o sentido, quando pronunciadas, mas pela intuição de que um gesto vale mais que mil verbos.
Posto que os grandes emocionam, são cantados em prosa e verso e ocupam a imaginação e o desejo da maioria, melhor mesmo é nem falar mais dos pequenos amores, que dispensam peso, grandeza e fama.
Eles existem. E se bastam.
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