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Quem teve o privilégio de ser jovem em meados do século passado deve se lembrar de uma coleção de livros que todo pai abonado adorava comprar para os filhos. O preço não chegava a ser extorsivo, mas nem em sonhos um operário teria tanta grana para investir na educação do filho. E, na época, biblioteca pública era privilégio da Capital e de mais duas ou três cidades interioranas.
Esse cenário de pobreza tornou ainda mais apropriado o título de "Tesouro da Juventude", dado à inesquecível coleção, verdadeira enciclopédia na qual a meninada descobria, para começar, que o mundo do conhecimento era bem maior do que se imaginava, e o mundo das coisas e das gentes mais amplo que a sua cidade, seu Estado e seu país.
Editada originalmente na Inglaterra, essa enciclopédia juvenil foi traduzida, adaptada e enriquecida de informações sobre o Brasil a partir da década de 1920, e relançada nos anos 1950. A comparação pode parecer tola - e é - mas, para quem não tivesse horror a livros, o "Tesouro da Juventude" foi a Internet dos anos 1950. E sem os perigos reais ou imaginários da rede mundial, que hoje tiram o sono das famílias.
Ao ouvir Beto Guedes interpretar a canção "Tesouro da Juventude", de Murilo Antunes e Tavinho Moura, os jovens felizes de ontem e anteontem certamente embarcam em um daqueles surtos de nostalgia que não fazem mal a ninguém, quando são passageiros (a nostalgia só é letal quando se torna companheira inseparável do portador).
Nenhum empresário investiria sequer dez centavos para relançar essa coleção, mas a Cecília e outras pessoas ainda guardam em casa a edição antiga, na qual deve haver a informação de que o escritor argentino Jorge Luis Borges publicou, em 1949, um livro de contos chamado "O Aleph", um dos momentos mais altos do autor e obra-prima da literatura mundial.
Borges abriu caminho e deu luz a toda uma corrente literária latino-americana, sucessora do surrealismo europeu, e só não recebeu o Nobel de Literatura porque os velhinhos da Real Academia de Ciências da Suécia morrem de medo de premiar autores de livros obscuros e polêmicos. E, como ele próprio disse, sempre quis ser "um escritor obscuro, quase imperceptível".
Escritor imperceptível ele nunca será, para adultos razoavelmente letrados, no mundo inteiro. Mas, se fosse vivo, descobriria hoje que há pelo menos um escritor que não ouviu falar dele: o nosso Paulo Coelho, agraciado em todos os continentes com rapapés e deslumbramentos que nem o próprio Borges recebeu em vida.
Amado por jovens e até por adultos, como o ex-presidente norte-americano Bill Clinton, que se deixou fotografar levando debaixo do braço uma de suas obras, esse brasileiro internacionalizado já vendeu mais livros que Graciliano Ramos, Jorge Amado e José Lins do Rego, juntos. Tamanho sucesso subiu à cabeça dos nossos melhores críticos, que sequer atribuem a ele o título de escritor e quase enlouqueceram, quando a França e a Itália lhe entregaram dois dos maiores prêmios literários desses países.
Pois saibam, meninas e meninos, que o Paulo Coelho, com desembaraço próprio destas era cibernética, anuncia que está escrevendo (ou já vai lançar) um novo livro, intitulado "O Aleph".
Mas não joguem pedra nele. Vai ver que o pobrezinho nunca leu o "Tesouro da Juventude". Ou esqueceu tudo.
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