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Os grandes cientistas são pessoas curiosas e alguns, como Albert Einstein, também sociáveis. Ana Amélia, apaixonada pelo Clube Atlético Mineiro e por Albert Einstein, andou aborrecida com o primeiro, mas após duas goleadas consecutivas já fez as pazes com o Galo. Quanto ao segundo, é paixão intelectual, que não depende de gols e nem de juiz honesto para se manter. Paixão assim dura a vida toda.
Ana reconhece que os cientistas são distraídos, mas sabe que os melhores, como Einstein, evitam abordar temas complexos, quando percebem que o interlocutor não tem interesse ou inteligência suficiente para entender seu pensamentos. Afinal, só os tolos tentam arrotar saber superior ao dos demais. É da autoria dela o núcleo da história que se segue, enviada diretamente do seu amado exílio em Curitiba e só parcialmente reescrita, para dar lugar a malícias pelas quais ela não é a responsável.
Levado a uma festa na qual não conhecia praticamente ninguém, Einstein inventou uma fórmula para se adaptar ao nível de inteligência de cada convidado. Escolhia aleatoriamente e cumprimentava cada pessoa com delicadeza, sem jamais botar a língua para fora, como o apanharam naquela fotografia clássica.
Aproximou-se do primeiro convidado e, sempre amável, quis saber qual o seu Quociente de Inteligência, o Q.I. Embora surpreso com esse interesse inusitado por sua intimidade, o velho respondeu:
- 250.
"Este joga no meu time. É um dos nossos", pensou o cientista, que sempre desconfiou das mentes medíocres, empenhadas em combater os grandes de espírito. Alguns minutos depois, já falavam de física quântica, teoria da relatividade, bombas de hidrogênio, do Universo, da improvável existência de Deus e da insensatez humana, não necessariamente nesta ordem.
Andou mais um pouco e se apresentou a uma mulher, portadora de Q.I. 150, com a qual conversou sobre a dimensão planetária dos problemas ambientais, a crise econômica na Grécia, Espanha e Portugal, a vulnerabilidade do euro e o ressurgimento do nacionalismo radical e do preconceito racional, em certos países europeus.
Algum tempo mais tarde, já encontrara outro interlocutor, este com Q.I. 100, e os assuntos dominantes foram as desigualdades sociais no Brasil, a fraude da reforma agrária de Lula, a síndrome da cegueira ideológica, o mensalão do PT e a péssima audição do presidente brasileiro, que sofre também de péssima memória.
Antes de encerrarem a conversa, o brasileiro lhe perguntou se conhecia as qualidades da dona Dilma para se candidatar e Einstein, após evidente esforço intelectual, respondeu que não saberia responder.
- É um mistério da natureza.
Apesar disso, tentou conversar com outra pessoa, de Q.I. 50. Se é para ir ao fundo do poço, não se pode ignorar ninguém, e Einstein foi obrigado a falar da casa dos artistas, Big Brother, novelas, minisséries, música baiana, pagode, Luciana Gimenez, Hebe Camargo, Sandy e Júnior, Roseana Sarney, FHC, Jader Barbalho e José Roberto Arruda.
Na sua última volta pelo salão, encontrou um jovem morador na Pampulha e dono de Q.I.gual a dez. E aproveitou para lhe perguntar o que havia de melhor em Belo Horizonte.
- O Cruzeiro dos Irmãos Perrela, mestre.
- É, meu filho, neste mundo tudo passa, menos os Perrela. Eles são eternos.
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