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Jáder Rezende
A professora Nara Firme e o cãozinho Lito: “foi possessão à primeira vista”
O episódio recente do vira-lata Fred, que havia sido doado para uma família de Franca, a 400 quilômetros de São Paulo, e percorreu 60 quilômetros durante um ano e meio para retornar ao seu antigo lar, em Jeriquara, também no interior paulista, fez aumentar expressivamente a procura por cães sem raça definida para adoção em todo o país. A observação é da analista de contas Alexsandra Brito, que há 20 anos encaminha cães errantes para sete ONGs protetoras de animais. Segundo ela, só em Belo Horizonte, a busca por animais abandonados aumentou 30%. A aparente resistência desses animais, segundo ela, é o que mais seduz os que pretendem “aumentar a família”.
Alexsandra, que recolhe em média 20 animais por mês nas ruas de municípios da Grande BH, afirma que até Fred virar notícia nacional havia muita resistência entre os pretendentes à adoção em levar para casa cães vira-latas. “É como ocorre na adoção de crianças. A grande maioria prefere as brancas, saudáveis e de olhos azuis”, compara. “Mas essa ideia generalizada mudou da noite para o dia. Ainda bem que Fred comoveu muita gente”, comemora.
De acordo com a professora da Escola de Veterinária da UFMG, Júnia Maria Cordeiro, os chamados vira-latas são resultado do cruzamento de várias raças e sua resistência e força podem ser explicadas pela capacidade de contornarem as adversidades. “São animais que, em geral, suportam as intempéries e têm sorte em não morrer cedo em função de uma série de doenças, principalmente a leishmaniose, e também a atropelamentos nesse trânsito caótico. Além disso, os mais espertos têm mais chance de sobrevivência”, explica. “Não é para menos que chamamos esses verdadeiros heróis da resistência de supercães”.
A especialista alerta que, ao se optar pela adoção de um cão sem raça definida, é importante levar a nova mascote imediatamente ao veterinário para um diagnóstico completo. O ideal, segundo ela, é optar pela castração, serviço oferecido gratuitamente por várias ONGs e pela Secretaria Municipal de Saúde. “Não adianta só recolher e levar para casa. É imprescindível ter a consciência da posse responsável”, alerta.
A adaptação ao novo lar, ainda segundo a veterinária, costuma ser mais difícil em relação a animais de raça, geralmente adquiridos quando ainda filhotes. Quanto mais velho o cão, maior a paciência que o novo dono deve ter. O ideal, observa ela, é levar os bichos para casa com quintal amplo, onde eles possam se exercitar, e não confiná-los em apartamentos. “Por estarem acostumados a viver nas ruas, sem limites territoriais, eles carecem de espaço suficiente para circular. Havendo um local apropriado para criar, a possibilidade de fuga se torna bem menor”, diz.
A paciência dos novos donos também deve ser redobrada. Júnia compara os cães a crianças pequenas, que precisam ser educadas e disciplinadas, mas as repreensões devem ser feitas no momento em que algum comportamento incorreto é percebido, como fazer necessidades fisiológicas em lugares errados ou destruir algum objeto. “Jamais se deve aplicar castigos físicos. As advertências devem ser seguidas de algum barulho, como bater com um jornal enrolado no chão. O castigo físico pode deixar o cão furioso e algum ataque súbito pode deixar sequelas permanentes”, avisa.
Júnia lembra que nos principais municípios da Grande BH costumam ocorrer, com frequência, feiras de adoção e na Internet há um grande rol de ONGs que oferecem animais abandonados para o mesmo fim. “Observamos que a adoção de vira-latas vem aumentando consideravelmente nos últimos anos. Além de sair de graça, a pessoa sai com a sensação de estar fazendo uma boa ação”, diz.
Há quatro anos, a professora Nara Firme deparou-se com um cão de rua dormindo ao lado de seu carro. Fraco e tremendo muito, o animalzinho foi recolhido por ela e levado a uma clínica veterinária. A intenção era encontrar um lar para o pequeno animal indefeso, mas a ideia foi logo descartada. “Me apaixonei de cara. Acho que foi possessão à primeira vista”. Nara lembra que, no “início da relação”, Lito passava horas em frente ao portão, olhando para a rua. Chegou a fugir quatro vezes.Na quinta, pensei que não o veria mais, mas no dia seguinte lá estava Lito, na garagem, esperando a porta se abrir para entrar em casa. “Depois disso, passamos a nos comunicar melhor e até hoje ele não desgruda do meu pé. Passei a recomendar amigos e parentes a adoção de animais de rua”.