Economistas veem chance de corte na Selic no fim do ano

Agência Estado
01/06/2014 às 18:21.
Atualizado em 18/11/2021 às 02:49

Depois das eleições presidenciais de outubro, o Banco Central poderá reduzir a taxa básica de juros, a Selic, caso a economia entre numa espiral de desaceleração, com aumento da taxa de desemprego e piora dos indicadores de confiança de consumidores e de empresários. O que, na avaliação de especialistas ouvidos pelo Broadcast, poderia gerar um processo desinflacionário no País. Para esses economistas, as chances de o Copom cortar a Selic no final do ano estão entre 15% e 30%.

Todos, contudo, trabalham com o cenário central de que o BC precisará elevar os juros a partir do início de 2015, no máximo, porque o IPCA e as expectativas de inflação estão bem distantes do centro da meta de 4,5%. A própria autoridade monetária estima que o índice de preços deverá subir 6,1% neste ano e 5,6% em 2015, como apontou o relatório de inflação de março.

Na avaliação do professor da PUC-RJ e economista-chefe da Opus Gestão de Recursos, José Márcio Camargo, caso o Banco Central verifique uma redução da velocidade da inflação no último trimestre do ano há uma boa probabilidade do Copom voltar a cortar os juros antes do final de 2014. Isto ocorreria num contexto de demanda agregada bem fraca até dezembro.

Camargo estima uma alta de 1,2% do PIB para este ano. Sua projeção considera uma herança estatística de 0,7 ponto porcentual para o produto interno bruto em 2014 vinda de uma expansão próxima a 2,5% em 2013 projetada por ele. "O nível de atividade está bem devagar. Estimamos que o PIB subiu somente 0,2% no primeiro trimestre, na margem. E entre abril e junho, a previsão é de ser apurado um resultado nulo", disse.

A piora sensível dos índices de confiança dos consumidores e da indústria aumentou a preocupação dos especialistas com a possibilidade de redução contínua do ritmo da atividade do Brasil no decorrer do ano. Alessandra Ribeiro, economista e sócia da consultoria Tendências, destaca que estes dois indicadores de confiança, medidos pela Fundação Getúlio Vargas, apresentam queda desde 2012. Cinco indicadores de confiança apurados pela instituição registraram retração em maio ante abril deste ano: Indústria (-5,1%), Consumidores (-3,3%), Serviços (-5,7%), Comércio (-2,5%) e Construção (-0,9%).

Os especialistas temem que esse movimento de queda da confiança generalizado seja o início de um processo mais amplo, que pode durar até a posse do próximo presidente, no começo de janeiro de 2015. "Modelos econométricos mostram que a deterioração destes indicadores pioram de forma sensível as perspectivas de compras de bens pelos cidadãos e de investimentos pelas empresas", comentou Alessandra. O consumo das famílias, ressalta ela, responde por cerca de 60% da variação do PIB. "Projetamos um crescimento do País de 2% para 2015. Mas caso as condições da economia piorem de forma contínua nos próximos meses a ponto de sinalizar que o PIB deverá subir no ano que vem apenas 1%, como ocorreu em 2012, então avalio que o Banco Central agirá e cortará os juros no final de 2014", ponderou.

Dificuldades em 2015

Dois elementos poderiam explicar a piora da confiança dos cidadãos e dos empresários em geral. Um deles é a percepção de boa parte da população de que a economia apresenta certa fadiga e gera desalento nos consumidores, pois o País tem inflação ao redor de 6% desde o início da gestão do governo Dilma Rousseff, e a taxa de crescimento do PIB e da renda empolga bem menos do que no segundo mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de 2007 e 2010. O produto interno bruto, por exemplo, exibiu uma taxa média de expansão de 4,6% naquele período, enquanto entre 2011 e 2014 o patamar deverá ficar perto de 2%. Isso gerou uma desaceleração da renda real no Brasil, que deve subir à média anual de 2,5% na gestão Dilma, estima Felipe Salto, economista da consultoria Tendências. No governo Lula, esse indicador alcançou um aumento médio de 3,4%.

Um fator que está provocando muitas dúvidas tanto na decisão de compra dos consumidores como na dos empresários em investir é a sucessão presidencial e a política econômica que será adotada pelo próximo governo. Tony Volpon, diretor de pesquisas para a América Latina da Nomura Securities, traça dois cenários, ambos com crescimento baixo: no primeiro, com a hipótese de vitória de Dilma, ele acredita que os juros terão de subir de 11% para 11,5%, a fim de combater a inflação. "Na melhor das hipóteses, o nível de atividade ficará no ano que vem igual ao de 2014, o que não é péssimo, mas também não é visto como satisfatório por esses agentes", destacou. Na hipótese de um candidato da oposição ganhar o pleito, especialmente se for Aécio Neves, ele diz que muitas pessoas imaginam que em 2015 virá um ajuste da economia bem expressivo, sobretudo na área fiscal.

"O ajuste causa uma percepção em consumidores e empresários de que o ano que vem poderá ter um crescimento talvez ainda menor do que o de 2014", disse, ressaltando que neste contexto, é natural que haja desde já uma retração dos investimentos e da propensão dos cidadãos em comprar bens. "Muitos têm dúvidas se continuarão nos próximos trimestres as boas condições do mercado de trabalho." Marcelo Salomon, co-diretor de pesquisas para a América Latina do banco Barclays, diz que as principais preocupações da população são a inflação, o emprego e segurança pública. "O cidadão em geral não vê que a economia está mal, mas percebe que está vulnerável e isso o torna mais conservador para comprar bens duráveis, inclusive porque as condições de financiamento estão mais seletivas", afirma.

E o cenário para o emprego pode perder fôlego no segundo semestre. Para José Márcio Camargo, um aumento significativo do número de pessoas dispostas a buscar trabalho de julho a dezembro poderia levar a taxa média do desemprego apurada pelo IBGE para uma marca ao redor de 6% no final deste ano, em termos dessazonalizados. A taxa média de desemprego no ano de 2013 ficou em 5,4%
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