Andre Brant/Hoje em Dia
Mulheres guerreiras travam luta na Justiça pela anistia
Cida e a mãe, Cipriana, sobreviveram a anos de horrores e se consideram vencedoras

Ela e a mãe parecem personagens saídos do livro “Os Sertões” (1897), do escritor Euclides da Cunha, sobre o massacre de Canudos (BA). Ambas sobreviveram a 17 anos de violência no campo, no período da ditadura militar, patrocinada por latifundiários de Bonfinópolis de Minas, próximo a Unaí, Noroeste do Estado.

O nome dela é Maria Aparecida (Cida) Rodrigues de Miranda, de 50 anos, casada; e o da mãe, Cipriana da Cruz Rodrigues, de 71, viúva. As duas são exemplos de mulheres de fibra, “guerreiras missionárias desarmadas”.

Nesta sexta-feira 98), Dia Internacional da Mulher, elas estão em Brasília (DF) para entregar ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, “solicitação de anistia política”, baseada na Lei 10.559, de 13 de novembro de 2002.

Cida é ex-líder das comunidades eclesiais de base (CEBs), função assumida em 1976, aos 14 anos, em Mandiocal, fazenda Riacho dos Cavalos. A região vivia, à época, violento conflito pela posse da terra, causa do assassinato do pai dela, Júlio Rodrigues de Miranda, em 1985, com dois tiros de revólver calibre 38.

Antes de matar Júlio, o latifundiário Geraldo Juscelino, acompanhado de dois pistoleiros, atirou na mãe de Cida, na altura do rim esquerdo, e ela traz a bala encravada até hoje. “Por sorte, sem nenhuma sequela”, disse.

Medo

Cipriana ficou sozinha com oito filhos menores. Muitas vezes, ela teve de dormir no mato com a meninada, tamanho era o medo.

Cida, a quem de fato o latifundiário queria executar, teve que vir para Belo Horizonte. Em seguida, foi para Erexim (RS) e, por último, para Cuba, fugindo das perseguições.

Tanto tempo depois, elas não se sentem revoltadas pela perseguição sofrida. Querem, sim, “encorajar outras mulheres, neste Dia Internacional, para uma atitude coletiva por nossos direitos”.

Hoje, olhando o passado, mãe e filha percebem que as mulheres conseguiram avanços. “Mas o importante é permanecermos atuantes a fim de alcançarmos novas conquistas”, afirma Cida.

Ela mora em Belo Horizonte. A mãe permanece na região de Bonfinópolis. Ambas venceram. A viúva criou todos os filhos, “com traumas, é preciso dizer”. A filha, na época das perseguições eleita presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Unaí, em 1984, atualmente trabalha como coordenadora pedagógica da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

Reparação

“Tendo em vista a perseguição que sofri, solicito a anistia política com reparação econômica, nos termos da Lei”, disse Cida, ao lado da mãe, no apartamento do ex-vereador Betinho Duarte, vice-presidente da Associação dos Amigos do Memorial da Anistia Política no Brasil.

Simbolicamente, com a sua atitude, Cida quer “tirar do anonimato a história dos trabalhadores rurais e contribuir para que seja reconhecida e julgada, com reparação política e econômica”.

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