A presidente da República corre o risco de cair porque seguiu ao longo de 2015 o que o mercado dizia que deveria ser feito. Deu tudo errado na economia, como era de se esperar. Agora, o mercado aposta todas as fichas no impeachment.
A presidente da República também corre o risco de cair porque aprofundou ao longo de 2015 a política de coalizão que transferiu ao PMDB a gestão da maior parte da máquina e do orçamento públicos federais. Deu tudo errado na política, como era de se esperar. Agora, o PMDB de Temer é o protagonista das articulações contra Dilma. Como se vê, a mentira impera no mundo político, e no mercado, a dissimulação e a hipocrisia.
Na política, não foi Dilma nem o PT quem inventou a política de coalizão, mas eles a alimentaram e fizeram-na crescer até o limite do insuportável. Partido sem qualquer ideologia, o PMDB é hoje a criatura que se volta contra o criador. Partindo do princípio de que não existe crime de responsabilidade que possa ser imputado à presidente, a orquestração do impeachment pelos antigos aliados só pode ser entendida como simples traição.
Já em relação ao mercado, a análise é um pouco mais complexa. Entidade acéfala e imaterial, é da natureza do mercado a busca pelo maior ganho a qualquer custo. Contra sua força destruidora e muitas vezes suicida existem as regras e os organismos de regulação. Respeitada a lei, tudo mais é permitido, não cabendo juízo de valor ao seu comportamento moral.
Com essa liberdade, a grita do mercado por ‘responsabilidade fiscal’ e ‘controle dos gastos públicos’ fez com que Dilma adotasse o ajuste fiscal no ano passado. Hipocrisia de parte a parte. Trocou-se o desenvolvimentismo pelo arrocho. E a virada na política econômica, feita em cima da cartilha conservadora, jogou o país na crise e beneficiou apenas especuladores, que no final das contas são a alma do mercado.
Sobreveio, então, a pior recessão da história recente do país que, somada à crise política desencadeada pela operação ‘Lava Jato’, ameaça hoje a presidente eleita e o estado democrático de direito.
O pecado original de Dilma foi levar o mercado a sério e não manter coerência ideológica na política econômica, com o objetivo de acomodar os conservadores em sua base de apoio no Congresso. E o segundo, foi dar seguimento à política de equilíbrio de opostos e aprofundar relações com pessoas e partidos pouco confiáveis.
Olhando retrospectivamente, pergunto: Dilma poderia ter feito diferente na economia ante a realidade financeira do governo ao final de 2014? A resposta é ‘sim’. E na política, ante um PMDB inchado e fisiológico, Dilma poderia ter feito diferente? A resposta é ‘ao menos tentado’.