Millenium Filmes/Divulgação
Amanda Seyfried - Linda Lovelace
Amanda Seyfried vive Linda Lovelace no cinema

Quando o tema é idade, a sentença "quanto mais velho, melhor" não se aplica à indústria pornográfica, que não esconde a preferência pelo jovem e belo. É por isso que os 40 anos de um dos clássicos do gênero, "Garganta Profunda" – primeiro filme a tirar o sexo explícito do gueto e ganhar as telas de cinemas tradicionais –, está sendo pouco lembrado.

Uma das razões é que o filme protagonizado por Linda Lovelace representa um passado oposto ao que o segmento vive hoje.

Com lucros exorbitantes e atrizes ganhando mais que estrelas de Hollywood, a indústria do pornô deixou de conceber suas produções como cinema, abandonando experiências de linguagem e narrativas.

"Tudo parece diferente em relação àquela época", assinala o jornalista Fausto Salvadori Filho, que escreveu sobre o gênero para revistas como "Ele & Ela" e "Trip", atualmente à volta com projeto de livro sobre a Boca do Lixo, juntamente com Gio Mendes.

Salvadori pontua as principais diferenças, a começar pelo aspecto estético dos atores: "Eles eram feios, pareciam pessoas comuns. Linda não entraria nos padrões de hoje, tanto o rosto quanto o corpo. Agora, os corpos são 'fabricados' para o pornô, com muita plástica e malhação".

Criadora do PopPorn, primeiro festival brasileiro sobre o tema, em São Paulo, já com duas edições, Suzy Capó destaca que o filme de Gerard Damiano foi um marco, alterando a cultura sexual dos Estados Unidos, chamando a atenção de celebridades como o escritor Truman Capote e o cantor Frank Sinatra. Além de ser o primeiro longa-metragem pornô a ser comentado no jornal "New York Times".

Ela lamenta, porém, que o mundo viva um retrocesso na discussão da liberdade sexual. "Hoje seria impensável esse tipo de exibição. Nossas sociedades ficaram mais conservadoras", registra.

Salvadori comenta que o sucesso de "Garganta Profunda" e o uso de sexo explícito em produções de arte criou uma migração da sexualidade como tema dos longas de Hollywood. "Os filmes passaram a ter ojeriza ao sexo".

Obra ajudou na revolução sexual

Linda Lovelace vive em "Garganta Profunda" uma mulher infeliz que não consegue se satisfazer sexualmente. Ela tenta de tudo para chegar ao orgasmo e descobre não ser o lado psicológico que a inibe na cama. Devido a uma excentricidade anatômica, seu clitóris está localizado na garganta.

A história ecoa as principais discussões da época, na carona do feminismo e da revolução sexual. "O mundo estava se abrindo para a questão da sexualidade. A década de 1960 lançou a revolução sexual e os anos de 1970 aprofundaram a questão. Esse fator ajudou a levar o filme para os cinemas de rua e torná-lo menos chocante às plateias normais", pondera o jornalista Fausto Salvadori.

"A história da mulher em busca do prazer pode parecer tola aos olhos de hoje, mas aquele tema representava um avanço para a época. Não é à toa que o filme virou capa de revistas importantes e assunto de telejornais", registra.

No Brasil, o filme, que rendeu US$ 600 milhões ao redor do mundo, só foi liberado dez anos depois, após a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo conseguir liminar para exibir "O Império dos Sentidos" (1976), de Nagisa Oshima, ao alegar que o filme tinha valor artístico. "Ele criou uma jurisprudência e filmes do gênero pornográfico foram lançados nos cinemas", lembra.

O jornalista destaca que "Garganta Profunda" foi feito com uma razoável qualidade de produção, com uma interessante e engraçada história. Ao contrário de hoje, o elenco, segundo ele, sabia um pouco mais de interpretação, dando um sabor especial aos diálogos.

No documentário feito sobre o filme, lançado em 2004, os diretores indagaram os pornstars se conheciam o longa de 1972 e a resposta foi decepcionante. "Nem sabiam do que se tratava. Visto hoje, provavelmente as pessoas não conseguirão ficar excitadas com o filme. Irão, sim, rir das cenas de humor que Damiano incutiu", avalia Salvadori.

Filme retrata a vida de Lovelace

A história de Linda Lovelace está sendo contada nas telas de cinema, no filme "Lovelace", dirigido por Rob Epstein e Jeffrey Friedman, com lançamento no Brasil previsto para novembro.

Amanda Seyfried, a loira de olhos arregalados de "Cartas para Julieta" e "Mamma Mia!", interpreta a "garganta profunda" do longa de Gerard Damiano. Peter Sarsgaard, James Franco, Sharon Stone e Sarah Jessica Parker completam o elenco.

A cinebiografia acompanhará os abusos sofridos por Linda na indústria pornográfica e também de seu marido, o fotógrafo Chuck Traynor. A intenção dos realizadores é passar uma mensagem sobre a violência contra as mulheres, embora não deixe de contar com cenas de nudez.

Linda LovelaceLinda e Gerard não verão o filme por terem falecido em 2002 e 2008, respectivamente. A atriz morreu num acidente de carro, tendo vivido a sina de "intérprete de um filme só". Pouco antes de morrer, ela podia se vista em talk shows americanos como candidata a um transplante de fígado.

Damiano descobriu Linda numa festa da pesada, quando constatou a "habilidade oral" da moça – conquistada devido a uma passagem circense como engolidora de espadas.

Ela foi uma das primeiras estrelas do pornô, com Marilyn Chambers ("Atrás da Porta Verde") e Georgina Spelvin ("O Diabo na Carne de Miss Jones"), considerada a trindade de ouro do gênero. Os três filmes foram produzidos na mesma época.

Suzy Capó salienta que, na década de 1970, havia um grande flerte entre cinema de arte e pornografia. "Não se restringia a 'Garganta Profunda'. Estavam na categoria pornografia, mas tinham elementos artísticos", observa.

Ela vê em "O Diabo na Carne de Miss Jones" um filme depressivo, sobre uma virgem suicida que ganha uma segunda chance no inferno para realizar os prazeres carnais na terra.

Outro exemplo de filme "sério" é "Misty Beethoven" (1976), de Henry Paris, uma versão do mito grego de Pigmaleão, sobre a jovem prostituta que é educada para ser uma dama – enredo que mais tarde serviria ao conto de fadas "Uma Linda Mulher", filme que lançou Julia Roberts.

"Com os avanços da tecnologia e da possibilidade de produzir mais e barato, a pornografia virou depois um produto de consumo de massa, apesar de ser ainda tabu, com poucas pessoas admitindo que veem", critica Suzy.

De acordo com Fausto Salvadori, os produtores foram percebendo que as histórias não funcionavam tão bem, principalmente quando o pornô foi para o mercado de home video.

"No cinema, tinha historinha porque as pessoas não aguentavam ver duas horas direto de sexo. Em casa, elas viam aos poucos, perdendo o conceito de começo, meio e fim. Os filmes passam a ser a reunião de cenas de sexo, podendo ser com atores diferentes", reflete Salvadori.

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