Jomar Bragança/Detalhe do Profeta/Reprodução
Bicentenário de morte de Antônio Francisco Lisboa, o mestre Aleijadinho

Além da impactante obra de Aleijadinho que pontua as cidades históricas mineiras, o que há de certo – assim se espera – sobre o artista é a data de sua morte. Em 2014, no denominado "Ano do Aleijadinho", será lembrado o bicentenário de morte do artista. No dia 18 de novembro, data da morte dele, desde o ano passado já se celebra o "Dia do Barroco Mineiro".
 
A partir deste ano, várias iniciativas estão sendo colocadas em prática para que a data não passe de liso. Uma delas vem da Editora UFMG. Trata-se da primeira biografia daquele que é considerado o mais importante artista do Barroco Brasileiro.
 
Fôlego
 
O título, próprio da época, pede fôlego: "Traços Biográficos Relativos ao Finado Antônio Francisco Lisboa, Distinto Escultor Mineiro, Mais Conhecido Pelo Apelido de Aleijadinho" foi escrita em 1858 pelo professor, promotor e deputado provincial mineiro Rodrigo José Ferreira Bretas (1815-1866). O autor narra o drama e sofrimentos vividos pelo artista para materializar sua obra, pouco mais de 40 anos após a morte de Aleijadinho, em 1814. O livro traz fotos de Jomar Bragança (nesta página) e prefácio do escritor e crítico Silviano Santiago. 
 
A biografia traz alguns dados já superados por pesquisas atuais. A data de nascimento do artista é um exemplo. Diz o autor que foi em 1730.
 
Porém, o Diretor da Editora UFMG, Wander Melo Miranda, salienta que mesmo sendo a primeira biografia ela ainda tem grande valor. "Bretas é um analista muito sensível. Já o texto do Silviano mostra o resgate da obra de Aleijadinho pelos modernistas. "Antes, era apenas um artista comum para eles", aponta Miranda. 
 
No texto, há citação de uma carta de 1927 de Mário de Andrade com um pedido ao – na época, jovem – amigo Carlos Drummond de Andrade: "Você vai fazer o impossível pra ver se me arranja aí um livro ou folheto sobre o ‘Aleijadinho’ dum fulano chamado Rodrigo José Ferreira Bretas, aparecido talvez por 1858". Como na época não existia xerox, Drummond resgatou o texto pioneiro e mandou. Detalhe: copiado a lápis.
 
No dia 18 de novembro de 1814, Aleijadinho era sepultado na Matriz de Antônio Dias, em Ouro Preto. "O Aleijadinho não ajuntou fortuna alguma pelo exercício de sua arte; além de que partilhava igualmente o que ganhava com o escravo Maurício, era descuidado na guarda de seu dinheiro, que de contínuo roubavam-lhe, e muito despendia em esmolas aos pobres", conta Bretas.
 
Patrimônio mineiro está "no nível dos romanos e da renascença"
 
Nem só de Aleijadinho vive o patrimônio do colonial mineiro. A afirmação é da arquiteta e pesquisadora da arte colonial mineira Selma Melo Miranda. A pesquisadora deve lançar livro sobre essa amplitude do acervo mineiro, seja em barroco ou rococó, fora dos grandes eixos, inspirada na sua tese de doutorado: "Arquitetura das Capelas Mineiras do Século 18 e 19". 
 
Essas "preciosidades" também são fruto do esforço das comunidades para construir obras que entraram para a história", diz Selma. Hoje que o país recebe um papa pregando repetidas vezes a simplicidade, não é tão complicado entender porque o embelezamento, em outros séculos, era uma expressão da fé obrigatória.
 
A pesquisadora vê a necessidade de divulgar, de estudar e de ampliar a pesquisa nesses tópicos. Aleijadinho, diz Selma, entrou para a história pela qualidade de suas obras, reconhecida até na época tanto pela criatividade quanto pela aplicação da técnica. 
 
"Mas no caso da arquitetura, também tivemos Francisco de Lima Cerqueira. Na talha e escultura, Francisco Vieira Servas", lembra de alguns vultos, todos portugueses. Da sua parte, Selma alerta a seus alunos: "Vocês conhecem a realização dos romanos, da renascença, mas o nosso patrimônio também está nesse nível".
 
Ano de Aleijadinho
 
No final deste ano, o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) divulgará ações para o "Ano de Aleijadinho", nome provisório para marcar o bicentenário. 
 
"Faremos uma cerimônia para lançar essa programa-ção no fim do ano", diz o presidente do instituto, Angelo Oswaldo. 
 
O pontapé inicial desses projetos, segundo Oswaldo, é a inauguração do Museu de Congonhas. "É onde está uma das obras primas de Aleijadinho: os profetas. Isso deve abrir as comemorações"conclui.