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cantora martinha
“Faço muitos shows pelo país – uma média de quatro por mês”

A voz de Martinha ainda ecoa por todo o país. Uma das musas da Jovem Guarda – a “Queijinho de Minas”, seu apelido – continua embalando sonhos de antigos – e de novos admiradores. E ainda que apareça pouco na telinha, semana passada mesmo participou do “Programa do Ratinho”, do SBT/Alterosa. No entanto, palco é com ela mesma: faz uma média de quatro shows por mês em cidades espalhadas pelo país que a descobriu nos anos de 1960, e que depois transformou em sucesso gravações como a de “Eu Daria a Minha Vida”, registrada primeiro pelo “rei” Roberto Carlos, mas que alcançou sucesso estrondoso mesmo na voz da mineirinha de Belo Horizonte. Ou “Barra Limpa”, entre outras.
 
Aos 66 anos, Martinha reside atualmente em São Paulo, de onde conversou, por telefone, com o Hoje em Dia. Martinha defende que a Jovem Guarda marca até hoje a vida brasileira, agregando fãs de várias gerações. Virou coisa de pai para filho. E ressalta que o movimento também influenciou o rock brasileiro. Embora afastada dos estúdios de gravação, garante que acompanha – com atenção – todos os lances da música brasileira. 
 
O que você anda fazendo?
Estou fazendo shows normalmente. Como faço pouco televisão, as pessoas acham que não estou ativa. Mas essa é uma opção minha. Agora, quem está bem informado sabe que não é assim. Faço muitos shows pelo país, com os grupos da Jovem Guarda. Dá uma média de quatro shows por mês. 
 
Como é a recepção?
É uma coisa fora do normal. É gente que nos acompanhou de perto e que ainda leva os filhos. Tem uma frequência grande de jovens nos shows. É muito interessante poder ver aquele mesmo público de antes.
 
O que mais te pedem para cantar nos shows ?
“Eu Daria a Minha Vida”, “Eu Te Amo Mesmo Assim” (hits da Jovem Guarda)... Mas é um show variado, toco piano, violão. E também homenageio colegas, cantando composições deles, além das minhas. 
 
Tem algum novo CD na forma para lançar?
Não tenho o menor interesse. Meu negócio é fazer show. Não existe mais gravadora, há apenas duas. Hoje é muito diferente.
 
E como você observa a nova cena musical brasileira?
Tem muito talento hoje em dia. Mas há menos oportunidades de mostrar o trabalho. Gosto muito da Ana Carolina, do Jorge Vercillo, da Maria Gadú. Não é novo, mas é um dos maiores, o Oswaldo Montenegro. E tem mais gente.
 
O seu trabalho estourou com a Jovem Guarda. Como era o convívio com Roberto Carlos, Erasmo e Wanderléa, a ternurinha?
Muito bom. Sem problemas. Às vezes algumas pessoas criavam rivalidade, mas não havia. Até hoje nos damos muito bem. 
 
A imprensa da época dizia que havia uma rivalidade entre você e a Wanderléa... 
Muito pelo contrário. Na Jovem Guarda tinha, sim, muita união. Não havia briga de vaidade. São dois estilos diferentes, a Wanderléa e eu. Ela sempre foi mais roqueira, e eu mais romântica. Mas duas cabeças muito boas. Na semana passada nos encontramos, foi uma beleza.
 
Como conheceu o “Rei”?
Por meio do Elmar Toca Fundo. Ele era radialista em Belo Horizonte e divulgador do “Rei”. Era amigo da minha mãe (Ruth) e foi quem me apresentou o Roberto. Levou o Roberto à minha casa (na rua Claudio Manoel da Costa, no bairro da Serra). Tenho muita gratidão pelo Elmar. Isso foi no dia 6 de junho de 1966. 
 
Naquele tempo, as revistas de fofocas diziam que você tinha um caso com o “Rei”. Era verdade?
Não. O Roberto é como meu irmão. Tenho dívida de gratidão.
 
Todo mundo na Jovem Guarda tinha um apelido. Roberto era o “Rei”, Erasmo Carlos, o “Tremendão”, Wanderléa, a “Ternurinha”. E você era o “Queijinho de Minas”. A incomodava?
Pelo contrário. Tenho muito orgulho de ser mineira, de ser de BH. 
 
Você tem vários sucessos em sua carreira. Mas qual é o mais marcante?
“Eu Daria Minha Vida”. Essa música rodou o mundo inteiro. Ele (Roberto Carlos) gravou primeiro do que eu, mas o sucesso foi meu. Ela (música) tem mais de três mil gravações fora do Brasil, sobretudo no mercado latino. Isso é uma coisa espetacular no México, no Chile, na República Dominicana, na Espanha, na Itália. E fora dos países latinos, ela está também na Alemanha.
 
Embora muita gente não saiba, você tem um lado compositor muito forte. Fale sobre isso?
É mais forte até do que o de cantora. Porque isso aí é uma coisa que não acaba. Enquanto eu existir, vou compor. É uma maravilha.
 
Qual a influência da Jovem Guarda para o Rock Brasileiro?
Antes já tinha a Cely Campello, o Toni Campello, o Ronnie Cord, mas eram versões que gravavam. Eles foram os precursores. Agora, o jeito brasileiro mesmo foi na Jovem Guarda. Além disso, a Rita Lee é um gênio. Ela também modernizou o rock.
 
Naqueles agitados anos 1960 havia os fã- clubes. Hoje existem as redes sociais. Como lida com isso?
Uso muito Facebook para distrair. Não uso internet para trabalhar, só para me distrair. Tenho fã-clube ainda. 
 
E como acompanhou toda a polêmica sobre as biografias não autorizadas. De um lado Roberto Carlos, Erasmo, Caetano, Chico Buarque, contrários, alegando o direito à privacidade, e do outro, escritores e jornalistas na briga pelo direito de liberdade de expressão. O que acha?
Realmente o artista tem o direito à privacidade a partir de um ponto. Mas o escritor tem que ter um mínimo de bom senso para saber aonde deve parar.