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Tião Martins
O bullying que vem do berço
 


Pais inseguros e ansiosos, logo que o filhote dá o primeiro berro, ao nascer, decidem que ele é um gênio e que ninguém chora igual a esse pimpolho. E, a partir daí, fixam metas e prazos para que a criaturinha prove que é perfeita. Começa assim o "bullying" modelo família, chantagem afetiva que as leis ainda não punem.
Todo ser humano quer ser melhor, ninguém duvida. É da nossa natureza. E não há mal algum nisso, a não ser que o desejo vire ansiedade torturante e leve o portador à ambição de ser "o melhor". Esse vai sofrer pelo resto da vida, em sua busca frenética de brilho, fama e fortuna.
Nenhum filho ou filha merece ser vítima de algo tão indigesto e neurotizante quanto essa mania da perfeição, que faz do seu escravo o mais intolerante dos imperfeitos. É paradoxal, sim. E, entretanto é só mais um, entre dezenas de paradoxos que fazem dos humanos uma espécie tão difícil de traduzir e compreender.
Está na moda falar do assédio contra adultos ou crianças, tanto no trabalho quanto na escola, nos templos religiosos ou no parque de diversões. Coisas assim acontecem há décadas, mas antes ninguém dava muita importância à travessia da garotada rumo à vida adulta. Íamos tropeçando por aí, entre silêncios e culpas, como determinava a cultura da época e os ensinamentos da Santa Madre.
A menina obesa, o garoto magrelo e os adultos tímidos e inseguros sempre foram vítimas de discriminação e isolamento, e isso era "bullying", mas ainda sem ganhar nome em inglês. Só que esse nome oculta algo mais perigoso: a herança neurótica que os pais deixaram.
Melhor seria que as famílias permitissem que garotas e garotos crescessem em paz, sem perseguir metas e modelos.
Por ser praticado dentro de casa e pela própria família, o bullying doméstico é o mais cruel e destrutivo de todos. E produz adultos doentes, solitários e tristes.
O fulaninho vai investir o resto da vida no esforço para contentar os pais, que costumam ser insaciáveis. E esse será o seu calvário.
E a menina, condenada a ser a mais linda, generosa, brilhante e genial de todas as garotas do planeta, não terá um minuto de paz.
Por mais longe que consigam ir, na arte, no ofício ou no meio social, os dois serão perseguidos pela frustração, a falta de amor-próprio e o sentimento de que nem mereciam ter nascido.
Quer castigo pior que esse, recebido já na primeira infância?
- Nem surra de chicote, aplicada diariamente, é capaz de produzir mal tão profundo, dizia o Fabrício Q., filho de italianos e condenado desde criancinha a se tornar exímio violinista e maestro, embora seu ouvido musical não o autorizasse a solfejar quatro compassos de qualquer musiquinha sem sair do tom.
Pais doentiamente ambiciosos são um perigo ambulante. Para realizar o sonho deles, não hesitam em escravizar garotos e garotas, como fizeram os pais da Juliana, obrigada a estudar balé a partir dos cinco anos de idade e aprisionada a esse destino até os 20, quando finalmente desistiram dela.
Não há nada de errado em desejar o melhor para os filhos e estimulá-los a crescer. Mas pegar no pé do garotinho e decidir que ele será o maior cirurgião de cabeça e pescoço que já se viu ou o grande craque que está sempre em falta no Clube Atlético Mineiro é crueldade que tem tamanho, peso e dor inesquecíveis.
Se crescer já é tão difícil, mesmo em famílias normais, ser gênio à força é de enlouquecer. E alguns enlouquecem. Para sempre.

Postado em 27 de Janeiro, 2012
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