Carnaval, cozinha e samba no pé

Eduardo Avelar / 15/02/2015 - 08h21

Olá, amigo da folia.

Na realidade, samba no pé para nós, cozinheiros e amantes da gastronomia, é a autenticidade da volta ao passado e a busca pelas nossas origens para inspirar os sambas contemporâneos e autorais dos chefs da atualidade no Brasil.

Antigamente, os blocos tinham suas alegorias recheadas de produtos e nomes importados como Filé à Rossini, Chateaubriand, regados a Matheus Rosé e Liebfraumilch da garrafa azul e precedidos por coquetéis não menos fantasiados e caricatos como Hi Fi, Cuba Libre, Gin Fizz, etc.

Todas essas alegorias eram regidas pelos grandes mestres franceses com seus “toques” e bigodes de Salvador Dalí e suas impecáveis “dólmãs”, e pelos maîtres “enternados e engravatados”, além dos sisudos barmen e garçons “emborboletados”.

Hoje, essas antigas, mas inesquecíveis composições carnavalescas de nosso país ainda têm o seu espaço, não somente em nossos corações, mas também nos estômagos famintos e saudosistas. São como as marchinhas de Arlequim, Pierrot e Colombina, que ainda embalam multidões.

Seguiu-se a esta fase uma entressafra carnavalesca na qual a criatividade e a brasilidade de Joãozinho Trinta se debatiam com a falta de identidade e criatividade nos blocos das novas cozinhas dos gourmets, que invadiam as avenidas com suas panelas e alegorias repletas de caviar, foie gras, poivre rose, e as letras repletas de rotis, sauces, strogonoffs, volovans, crepes suzettes, ora Chivas ora Bordeaux, ora Johnnie Walker Black ora Moet et Chandon.

Cachaças, pingas ou aguardentes faziam parte dos blocos alternativos e não eram muito bem vistos pelas famílias e pelos moralistas de então.

Certamente, o ritmo ainda estava em descompasso, mas como a folia não podia parar, assim fomos “carnavaleando” pelos anos, e hoje os blocos assumiram a folia plena e desavergonhada, onde o samba está de volta ao pé, ao terreiro, ao quintal, com as suas fantasias desnudando as nossas almas brasileiras e mostrando toda nossa beleza e diversidade cultural.

Não importa a onda musical, se é axé, forró, carimbó ou funk, pois o bloco do pequi, do baru e do buriti arrasta milhares de foliões e se encontra com outros não menos animados, como os do angu, quiabo e jiló, que desafia os da canjiquinha com costelinha, do tutu com linguiça e do frango ao molho pardo com couve refogada. A eles ainda se juntam os saudosistas, os alternativos, os decadentes e os futuristas, todos imbuídos pelo tempero democrático que embala as melhores receitas de nossos cozinheiros brasileiros.

A guerra dos confetes se recria nos mais simples temperos, ou nas mais sofisticadas criações, mas agora sem as máscaras e os enredos importados como padrão, e sim como opção.

E viva o carnaval!
 

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