Ele é capaz de fazer "mágica" com pouco dinheiro. E reconhece: "Se um filme custa R$ 1 milhão, consigo realizá-lo por R$ 50 mil. E com boa qualidade". O ex-judoca Cavi Borges é hoje o principal produtor independente do país, aquele que todo mundo bate à porta quando o projeto não é aprovado por leis de incentivos ou tem dificuldades em conseguir patrocinadores. Em pouco mais de dez anos, já entrou para a lista dos maiores cineastas brasileiros, exibindo no currículo 85 trabalhos, sendo 16 deles longas-metragens.

Os mineiros terão oportunidade de conhecer essa "fórmula" durante o Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, com início na sexta-feira (14) no Palácio das Artes. Em sua 14ª edição, com uma programação de mais de 170 produções de pequena duração e de vários países, o festival promove a oficina de Produção em Rede, que tem o intuito justamente de compartilhar o método de trabalho de Borges, incentivando a realização de filmes de baixíssimo orçamento e com equipes reduzidas.

O cineasta carioca não esconde a receita, resumindo em uma palavra o que tornou possível o sonho de muitos realizadores iniciantes: cooperativismo. "Tenho muitos parceiros que me ajudam. Substituo a falta de dinheiro por apoio de diversas pessoas ligadas ao ramo cinematográfico", afirma. Destrinchar essa operação é também falar da carreira pessoal de Borges. Após a frustração de não poder mais entrar num tatame, por conta de uma lesão no joelho, ele virou dono de locadora em 1997.

Reduto de fitas raras

"Quando me machuquei e abri a locadora, não entendia nada de cinema. Foi quando comecei a procurar filmes de arte para aprender", recorda. Não demorou muito para a Cavideo se tornar referência na Cidade Maravilhosa, reduto de fitas onde não se encontrava em nenhum outro lugar. E não tem vergonha em confessar que uma parte desse material era formada por piratas. "O cliente perguntava sobre um filme que não tinha no mercado e eu respondia que podia voltar no dia seguinte, porque eu baixaria".

Foi nessa época que começou a ser apresentado a jovens realizadores, que frequentavam sua locadora em busca de raridades. Em 2000, abriu um cineclube, numa época em que o movimento cineclubista estava em baixa. "Passava filmes raros, como curtas de Stanley Kubrick e Lars Von Trier. O digital ajudou a disseminar isso, com as pessoas levando o cinema para lugares não-convencionais, como favelas e competições de arrancadas de carro", observa.

"Mateus, o Balconista" foi dos mais acessados

Os primeiros curtas-metragens surgiram em 2001, "num esquema bem simples, juntando a galera e fazendo em digital, na época que as pessoas ainda estavam descobrindo essa tecnologia". O primeiro trabalho foi uma encomenda para a plataforma de celular, o capítulo da série "Humanóides", coordenada por Rosane Svartman. "Mateus, o Balconista", com Mateus Solano, foi um dos mais acessados. Logo depois veio o filme baseado no personagem, produzido com apenas R$ 2 mil.

"Filmamos tudo numa noite, pois o Mateus estava trabalhando na televisão. Fui aprendendo na prática, quebrando a cara", relata. Apesar de soar meio improvisado, foram muitos prêmios conquistados em festivais, como os longas-metragens "Enchente" e "Riscado" (ganhador do troféu Kikito de melhor atriz no Festival de Gramado de 2011). De todos esses trabalhos, apenas dois tiveram recursos provenientes de leis. "Todo o resto foi feito através de redes colaborativas", assinala.
 

Cavi Borges

Cavi Borges é um dos destaques do Festival Internacional de Curtas (Foto: Festival Internacional de Curtas/Divulgação)


Bermuda e camiseta

Sempre vestido de camiseta e bermuda, mesmo em festivais marcados por temperaturas baixas, como o de Gramado, Borges carrega várias cópias de seus filmes para vendê-los. Na Mostra de Tiradentes, no início do ano, arrancou gargalhadas da plateia ao colocar uma plaquinha em que se lia: "Três DVDs por R$ 15".

Em novembro, ele abrirá uma sala de cinema no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, garantindo assim a exibição de seus filmes e de realizadores independentes. O passo seguinte é montar uma distribuidora de filmes para a telona. Para marcar os 15 anos da Cavideo, ele se associou ao Canal Brasil para apresentação de todos os longas simultaneamente no cinema e na TV.

"Viagem à Lua" abre a mostra

Até o dia 23 as produções serão exibidas gratuitamente, no Cine Humberto Mauro, na Sala Juvenal Dias e no Cult Club Cine Pub. Dos 170 filmes, 73 estarão em competição. Para a abertura, às 19h, no Palácio das Artes, o clássico francês "Viagem à Lua", que completa 100 anos, será exibido com trilha sonora especialmente produzida pelo ex-Mutante Arnaldo Baptista, que tocará ao vivo durante a projeção.

Outro destaque do dia é "La Règle de Trois", dirigido pelo ator francês Louis Garrel. Debates, sessões comentadas e oficinas completam a grade de eventos. Horários e sinopses estão disponíveis na página Festcurtasbh.com.br.