Aquela frase especulativa “Se ainda estivesse vivo...” será uma das mais ouvidas amanhã, quando John Lennon completaria 80 anos. O que um dos fundadores da icônica banda Beatles estaria fazendo hoje, política e musicalmente, se não tivesse sido assassinado por um fã na porta de seu prédio, em Nova York, há quatro décadas? 

“Jamais saberemos, mas é um exercício que a gente faz de vez em quando”, admite o crítico Rodrigo James, para quem o parceiro de Lennon nos Beatles, Paul McCartney, só ganhou certa vantagem como protagonista porque não teve um Mark Chapman – o autor do crime que mudou a história da música – em seu caminho.

“Por que Paul ficou mais conhecido? Porque viveu mais do que John Lennon, com mais gerações tendo contato com ele. Nos Beatles, a importância de Lennon era tão grande quanto a de Paul. Ambos fizeram músicas fortes, apesar dos estilos diferentes, em que se dava para ver direitinho quem fez o quê”, analisa James.

O crítico lembra que “Strawberry Fields Forever”, composta por Lennon, representou um marco na trajetória do quarteto de Liverpool. “Ela é Lennon puro e um marco da experimentação dos Beatles. Uma virada de chave, cheia de colagens e pedaços. Com andamentos diferentes, é até difícil de produzir”, assinala.

Os pontos a mais para McCartney se devem, segundo ele, à duração e à quantidade de sucessos da carreira solo. “Além de relativamente curto, o trabalho solo de John foi irregular. Ele não teve um disco perfeito, ao contrário de McCartney, que realizou dois ou três. O que é muito pouco para um artista do porte dele”, compara.

Imortais
Nos 12 anos que marcam a separação do grupo da morte de Lennon, o beatle mais ativista alcançou, porém, um patamar não igualado pelo colega, como autor de obras de “ultrapassam qualquer fronteira”, na definição de James. Ele destaca que “Imagine” e “Happy Xmas (War is Over)” se transformaram em peças imortais. 

“São aquelas que qualquer pessoa canta, imediatamente reconhecíveis quando as ouvimos. ‘Xmas’ então virou quase um hino de Natal. Paul tem clássicos incríveis e absolutos, mas não nesse nível”, observa. Apesar disso, as pessoas continuam a falar mais da figura de Lennon do que propriamente a ouvir o legado musical.

James indaga sobre o que teria sido a carreira do rock star após 1980, espelhando-se no trabalho feito pelo filho Sean Lennon, “que não se deixou contagiar por convenções e padrões, fazendo um trabalho musicalmente à margem”. O último álbum de John foi “Double Fantasy”, lançado pouco antes de sua morte.

Embora “Double Fantasy” seja o mais convencional da carreira solo de Lennon, quando tentava dar um novo start em seu trabalho, após oito anos sem gravações de estúdio, James põe o disco entre os melhores do cantor, ao lado de “Milk and Honey” – reunião de ensaios e ideias inacabadas, foi distribuído postumamente em 1984.