Há um toque feminino, inédito e discretamente oriental na cena masculina da ópera “Rigoletto”, de Giuseppe Verdi (1813-1901), que estreia neste sábado (18), no Palácio das Artes, exatos 30 anos desde a primeira montagem da história na casa. Este toque vem da maestrina Lara Tanaka. Desde o início deste ano, ela está como regente assistente do Coral Lírico de Minas Gerais, ao lado do maestro Lincoln Andrade.

Com 2h45 de duração e 200 artistas em cena, a ópera conta com vários maestros, sob a direção musical do maestro Marcelo Ramos. Mas Lara faz sua participação de “assistente” impossível de não ser notada. “Em todos os festivais de música que participei, sempre era a única regente mulher”, lembra ela, há 13 anos como regente titular do Coral Infantojuvenil Palácio das Artes.

Lara diz que consegue reger contornando tudo “com delicadeza”. Ela é filha de uma brasileira e de um japonês, ambos músicos, que se conheceram em São Paulo. O pai também trabalhava como engenheiro agrônomo, motivo pelo qual foi transferido para Belo Horizonte. Aqui, a maestrina-nissei nasceu.

Na estreia com o Coral Lírico numa ópera, a única maestrina dos corpos artísticos do Palácio das Artes preparou 30 cantores. O time masculino pedido por Verdi teve como primeira dica disciplinadora dela um “dever de casa” simples: decorar o texto.

Pela segunda vez, o cantor André Felipe é regido por uma maestrina. “Mulheres têm sensibilidade. Por serem tão poucas maestrinas, parece que não podem falhar”.

Há 30 anos no Coral, o tenor Sandro Assumpção também encara a segunda maestrina. “Ela tem essa coisa oriental da disciplina. Entramos em cena sabendo absolutamente tudo o que estávamos cantando”.

Participante da primeira montagem de “Rigoletto” no Palácio das Artes, como bailarina, a diretora de Produção de Ópera do Palácio das Artes, Cláudia Malta, justifica a longa espera para uma segunda apresentação. “Não é uma ópera fácil de produzir. Precisávamos de um barítono ‘verdiano’, com uma voz grande e que consiga ir dos graves aos agudos com volume”.

Este cantor especial faz Rigoletto. Um bobo da corte fofoqueiro que fica atolado em uma vingança ao ver a inocente filha, Gilda, aliciada pelo mulherengo chefe dele, o Duque de Mântua. Depois, ela é assassinada em uma cilada montada pelos desafetos de Rigoletto. Para este protagonismo, foram chamados o italiano Devid Cecconi e o paulista Rodolfo Giugliani.

Um lado tão sombrio dos homens debaixo de tão belas sonoridades… “No último dia 12, em trechos que apresentamos no Parque Municipal, a moçada achava um absurdo as atitudes do Duque”, lembra Cláudia. Mas ela frisa: “O mais importante de tudo é a música”.

Mas se alguma senhora/senhorita se sentir incomodada, o maestro Marcelo Ramos diz estar preparado para as manifestações. “Na época, acontecia isso. Jogavam tomates, gritavam. Mas aqui é a arte pela arte. Mas se acontecer, vai ser ótimo também”, reflete.