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No dia 15 de março de 1998, Tim Maia faleceu após sentir-se mal em um show, em Niterói

Há exatas duas décadas, ele partiu. E nunca mais voltou? Neste verso, a canção já não pode ser parafraseada. Afinal, Tim Maia ausentou-se em matéria, mas sua obra e biografia seguem vívidas. O legado do Síndico – que deixou mais de 30 discos, entre registros ao vivo e de estúdio – formatou a música negra brasileira e o alçou ao panteão dos mais icônicos cantores e compositores do nosso cancioneiro.

“Meu pai foi como um Barry White, um James Brown. Dessas figuras que a gente só vê uma vez na história. Falando em representatividade, ele está para o Brasil como Bob Marley está para a Jamaica”, defende o músico Léo Maia, um dos filhos de Tim. “Como disse Gil, ele tinha ‘voz de trovão’. Cantava com alma, era um compositor e um arranjador genial, tocava bateria, violão, teclado, flauta transversal, percussão”, destaca.

Léo ressalta o pioneirismo de Tim Maia como um dos primeiros artistas independentes do Brasil. “Era um visionário. Foi um dos primeiros a conceber sua própria gravadora, isso nos anos 60. Numa época em que gravar um disco equivalia a comprar um apartamento, ele já ‘tirava onda’”, pontua, lembrando as inovações musicais do carioca, morto em 15 de março de 1998, após sentir-se mal em um show, aos 55 anos. 

“Ele mudou o dial das rádios. O que tocava era ‘iêiêiê’, e ele chegou trazendo aquele som, uma junção de estilos brasileiros com a black music americana”, afirma, rememorando os primórdios de Tim junto ao The Sputniks, com Roberto e Erasmo Carlos. “Era um cara muito esperto, sabia tirar o ‘barato’ de qualquer situação. Lembro da gente em casa, assistindo ao programa do Chacrinha, quando o José Augusto entrou cantando. Ele disse: ‘Quer dizer que o Brasil agora está na onda do ‘mela-cueca’. Ligou para o (produtor) Michael Sullivan e disse que queria fazer umas músicas românticas. Dali a pouco, lançou um álbum com ‘Essa Tal Felicidade’, ‘Azul da Cor do Mar’, ‘Me Dê Motivo’. Só hits”.

Memórias

Léo Maia coleciona recordações divertidas do pai. “Eu era moleque, estudando violão no estúdio, e ele me entregou uma vassoura. Disse que, antes de música, eu tinha que ter aula de humildade, tinha que limpar o chão que a Vitória Régia ia tocar”, diverte-se. “Era o jeito dele de educar, sempre foi um cara ‘oito-oitenta’. Amou muito, vacilou muito, mas tinha um coração gigantesco e sou testemunha disso. Tanto que dividiu sua genialidade com os amigos. Apresentou à indústria o Cassiano, o Hyldon, o Dafé. Abria espaço para todos que ele considerava”, sublinha. 

Outras memórias de Léo remetem às suas músicas preferidas. “‘Réu Confesso’ é muito especial, pois foi a música que pagou meu parto. Com o cheque que recebeu pela música, ele conseguiu resolver as despesas do hospital, do registro”, relembra. “Também lembro de um dia que estávamos no Leme, olhando para o mar, e ele disse: ‘Não tem visão mais bonita que essa, do Leme ao Pontal. E depois fez aquele sucesso”, afirma, destacando ainda “Márcio Leonardo e Telmo”, canção em que Tim Maia homenageia os filhos.

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Léo Maia destaca a genialidade artística e o pioneirismo do pai: 'Ele era um visionário' 

Representatividade

Em 2014, a história de Tim Maia ganhou versão cinematográfica, de título homônimo, baseada no livro “Vale Tudo”, do jornalista e amigo Nelson Motta. No longa, o Síndico é vivido pelo também carioca Babu Santana, admirador de sua obra. “Ele era um artista pleno, inclassificável. Misturou soul com rock, com bossa, com funk. Em algum momento da vida de cada brasileiro, sua música será trilha sonora”.

Babu lembra do show de Tim, que assistiu no Arpoador, nos anos 90. “Em ‘Primavera’, ele deixou a Vitória Régia tocando e foi encher seu copo de uísque. A plateia começou a cantar e ele só fazia algumas frases. Era incrível como dominava o público”, afirma, revelando que suas favoritas estão nos dois discos da imersão de Tim na Cultura Racional. “São as músicas hors concours dele. Aquilo é coisa de gênio”, diz.

O ator ressalta, ainda, a representatividade de Tim. “Ele atingiu um lugar onde o negro ainda não tinha chegado no Brasil. Obeso, morador de periferia, que venceu num mercado super estereotipado”, reflete. “Busquei essas interseções para interpretá-lo, porque conheço muitas dessas dificuldades como um jovem negro, fora dos padrões, buscando viver de sua arte. Sou muito feliz por ter tido a honra de fazer esse papel”, ressalta.

Inspiração

Anos após sua partida, Tim Maia segue sendo reverenciado pelos quatro cantos do país. Em Belo Horizonte, prova disso é o Chama o Síndico, bloco carnavalesco que se dedica às obras do artista carioca e de Jorge Ben, um de seus grandes amigos e parceiros musicais. Criado em 2012, em meio ao "reflorescimento" do Carnaval de rua de BH, o bloco levou para a folia versões repaginadas de clássicos de Tim e Ben, com arranjos que misturam diferentes ritmos brasileiros. Neste ano, o desfile do Chama o Síndico arrastou cerca de 60 mil pessoas à avenida Afonso Pena, comprovando a potência e a atemporalidade do cancioneiro da dupla homenageada. 

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O desfile do Chama o Síndico arrastou mais de 60 mil pessoas à Avenida Afonso Pena, em 2018