Raquel Hallak é uma espécie de cupido dentro do cinema independente brasileiro. Há cinco anos, durante a programação da Mostra CineBH, cuja oitava edição tem início nesta quinta-feira (16), na capital mineira, a coordenadora-geral vem promovendo o encontro entre produtores do país e o mercado audiovisual internacional.

Entre as quase 100 produções que serão exibidas até o dia 23, em três espaços (Cine Humberto Mauro, Palladium e Centro Cultural Banco do Brasil), há “finais felizes” como “Castanha”, de Davi Pretto, e “Obra”, de Gregório Graziosi, longas que tiveram em BH um trampolim para saírem do papel.

Agora Raquel resolveu ampliar o leque de alvos para as suas “flechas”, abrigando também os documentários. É a grande novidade da CineBH em 2014. “Nesse meio tempo observamos uma grande lacuna nesses eventos de mercado para os documentários, muitas vezes porque dialogam menos com o exterior”, observa.

FRONTEIRAS

Com o impulso que a nova lei da TV paga está oferecendo ao gênero, ao exibir mais conteúdo nacional na programação televisiva, Raquel acredita que o momento é oportuno para ajudar a cruzar a fronteira. “Um de nossos workshops é uma consultoria sobre como o documentário pode dialogar no mercado global”.

O gaúcho “Castanha” será usado como exemplo bem-sucedido de trânsito internacional, após percorrer vários festivais lá fora. A receita? “Em primeiro lugar, o filme tem a particularidade de não ter uma classificação fácil. Cada um o classifica de forma diferente, visto como ficção em alguns festivais”, salienta Pretto.

Em 2012, quando participou dos encontros de negócios da CineBH com outro projeto, “Até o Caminho”, o diretor estreante costurou os acordos para a realização de “Castanha”, filme que acompanha um artista que trabalha como transformista em clubes gays.

CICLO

“Sinto que, com essa exibição em BH, um ciclo está se fechando. Foi aí que conheci pessoas essenciais para a carreira do longa”, enaltece. Pretto registra que não adianta apenas mandar os filmes para fora: “É preciso trazer as pessoas para cá também. Esse caminho de mão dupla se relaciona e se alimenta”.

A Mostra também tem um carinho especial pela América Latina, sempre promovendo retrospectivas de diretores importantes e pouco difundidos no Brasil. É o caso do argentino Santiago Loza, que terá oito de seus trabalhos exibidos. “É uma oportunidade de troca de experiências, aproximando o país de seus vizinhos”, assinala Raquel.

CCBB também recebe Mostra

A Mostra CineBH será aberta nesta quinta, às 20h, no Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil (CBBB), com a exibição do filme mineiro “Deserto Azul”, de Éder Santos. O CCBB é estreante na Mostra, que já teve o cine Santa Tereza, o Belas Artes, o Oi Futuro e Inhotim como parceiros.

“Ao instalarmos um equipamento digital no teatro, estamos sinalizando que ali é possível criar um espaço alternativo para o cinema”, afirma Raquel, que sublinha a necessidade de o Circuito Cultural Praça da Liberdade se voltar também para o audiovisual.

Ela lamenta que os grandes cinemas de rua, como Brasil e Palladium, tenham sido transformados em centros culturais que não privilegiam o audiovisual.

“Como cidade planejada que foi, Belo Horizonte chegou a ter um cinema em cada bairro”, lembra.