A cena de 12 apóstolos sentados à mesa com Jesus Cristo é conhecida universalmente. Retratada em diversos afrescos ela ganhou, em 1497, sua mais famosa representação assinada pelo gênio renascentista Leonardo da Vinci (1452-1519).

Um livro lançado recentemente no Brasil, best-seller em 43 países, levanta novas controvérsias em relação às supostas intenções de Da Vinci. Para o jornalista e pesquisador espanhol Javier Sierra, autor de “A ceia secreta” (Editora Nova Fronteira, 320 páginas, R$ 45), o quadro é uma agressão explícita à Igreja Católica, comandada à época pelo Papa Alexandre VI.

Séculos depois, a obra-prima não apenas alimenta teorias sobre supostas mensagens subliminares, como é recriada em contextos completamente distintos sem perder sua essência: a comunhão.

Também chamada de "A Santa Ceia", a obra de Da Vinci é reinventada em cenários políticos atuais, revela críticas socias, reúne à mesa artistas, filósofos, personagens de filmes e desenhos animados.

 

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"A última ceia" de Star Wars

 

A doutora em História Social e professora do Departamento de História da UFMG, Adriana Romeiro, acredita que a apropriação criativa da obra de Da Vinci pode ser vista como uma homenagem, como o reconhecimento do seu valor icônico em nossa cultura.

"Acho que tal postura é muito reveladora de um dos traços da nossa cultura pós-moderna: o gosto pelo paródia, a visão do passado como um rico manancial à nossa disposição. Sem dúvida, mantemos uma relação complexa com este artista italiano: ao mesmo tempo que admiramos a sua obra, tendemos, muitas vezes, a ter um olhar anacrônico sobre ela", explica Adriana para completar em seguida:

"Nossa cultura criou um mito que, a bem dizer, corresponde muito pouco ao Leonardo da Vinci histórico que conhecemos. A começar pelo fato de que ele não era um vanguardista - no sentido que hoje usamos esta palavra. Aliás, não havia o conceito de vanguarda naquela época".

 

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Quadro de italiano segundo a política brasileira

 

Ainda segundo a historiadora, as releituras de Da Vinci servem para aproximar o observador da obra e, de alguma maneira, de assuntos que lhes são caros. "A arte só funciona quando ela fala a linguagem do fruidor, ou seja, quando mobiliza o repertório compartilhado coletivamente por uma sociedade, num determinado momento. É bem salutar este processo de retomada dos elementos da cultura de massa, para, a partir deles, elaborar uma reflexão sobre o mundo em que vivemos".

A doutora completa que trabalhos como esses contribuem para a arte, até porque elas causam um impacto, uma surpresa no observador. "Nossa reação é, primeiro, de espanto, e depois, de admiração, e, por fim,  reflexão. Essas imagens nos levam a indagar sobre os objetivos do artista, sobre a mensagem que ele pretendeu transmitir".

Adriana lembra que a função da arte é proporcionar algum tipo de reação, seja de surpresa, seja de reflexão. "É uma forma de problematizar o mundo à nossa volta, elaborar uma opinião a respeito dele. E isto é enriquecedor!"

Nos tempos difíceis em que vivemos, há que se confortar que a arte proporciona uma espécie de salvação. Afinal, por meio dela, exercemos a faculdade de refletir, de criticar, de estabelecer empatia com outros indivíduos.