“Já passei dos 20 anos de carreira e estou com 43 anos”, faz as contas de sua bagagem de vida, sem ares trágicos, a atriz belo-horizontina Letícia Sabatella, em entrevista ao Hoje em Dia. Na Praça da Liberdade, a artista, descendente de mineiros (de Itajubá) e paranaenses, se prepara para ocupar o palco do teatro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), onde interpretará – aí sim – a trágica “Antígona”, desta sexta-feira (3) ao dia 26. Na montagem “Trágica.3”, Letícia estará ao lado de outras experientes atrizes: Denise Del Vecchio (“Medeia”) e Miwa Yanagizawa (“Electra”).

Escolhas pertinentes: pressupõe-se que a intensidade emocional das tragédias gregas demandem respeitável experiência. Assim as três atrizes demonstram. A novidade é que o texto incorpora um ar contemporâneo para o que é milenar. Isso é feito por meio das artes plásticas e das canções.

Completam o elenco os atores Fernando Alves Pinto (“Hêmon”) – com quem, aliás, Letícia é casada e prepara um show com canções compostas por ela –e Marcello H (“Orestes”). Eles interpretam a trilha sonora da peça ao vivo.

Olhar experiente

Balé desde os 8 anos, teatro, a partir dos 14. Letícia Sabatella diz que gosta da idade que apresenta, ainda mais, pelas aberturas de percepções que conquistou. “É de uma presença de espírito muito maior. Uma disponibilidade. Sempre quis poder encarar uma tragédia”, frisa.

A mineira diz que vê seu desafiante texto, escrito por Sófocles, com muita poesia. O dramaturgo responsável por Antígona nasceu em Atenas, provavelmente no ano 495 antes de Cristo (a.C.). Em resumo, os textos falam de Medeia, a que mata; Electra, a que manda matar; e Antígona, no qual há um suicídio. Eis o que é tragédia.

“Trágica.3” foi dirigida por Guilherme Leme Garcia – o também ator agora assina o sobrenome em homenagem ao pai. “Eu tinha chamado o Guilherme para dirigir um trabalho meu, de música. Então, ele queria que eu fizesse uma tragédia”, diz ela. “Antígona é uma liberdade extrema de ser o que você é, custe o que custar. E ela paga com a própria vida”.

Para compor a trilogia, Guilherme escolheu “Medeamaterial”. O texto, do dramaturgo alemão Heiner Müller (1929-1995), foi escrito a partir de “Medeia”, tragédia de Eurípedes (poeta grego, que viveu entre 480 a.C. e 406 a.C.).

Já a releitura de “Antígona” foi feita pelos brasileiros Caio de Andrade e a “Electra”, por Francisco Carlos.

Das tragédias cênicas às reais, atriz sonha com um novo país

Engajada em causas sociais desde o início da carreira, Letícia Sabatella diz que, assim como em sua personagem, a grega Antígona, já viu muita gente lutando pelo que considerava justo. “Vi muitos brasileiros lutando por causas áridas e recebendo respostas violentas. Pagando até com a morte”, compara. Trabalhando, indo a várias cidades brasileiras para prestar apoio a várias organizações de cunho social e direitos humanos, Letícia diz que, neste percurso, já conheceu “muita gente heroica”.

Isso lhe inspira? “Inspira, também. Mas me faz enxergar o que realmente é para ser feito. O que eu faço, porém, não é uma grande coisa. É uma parcela. As grandes coisas, quem faz é quem está colocando sua vida em risco. É uma força que está aí querendo construir um lugar melhor”. Questionada sobre o que vislumbra para o Brasil, Letícia é realista e lança outra pergunta: “O que vislumbro ou o que desejo?”.

“Não sou absolutamente otimista nem pessimista. Sou realista. E crítica de muitas questões”, sugere. Uma dessas críticas recai sobre o modelo brasileiro de desenvolvimento “arcaico”, muito ligado ao “não-sustentável”. E nisso vai desde como se encara o uso dos “patrimônios naturais” até a educação. “O foco tem que ser cada vez maior em educação e cidadania, apoiar o cidadão com ferramentas intelectuais, ligadas à consciência”.

Em casa

De volta a Minas Gerais, Letícia diz que tem muitos amigos na capital e no interior. Alguns da classe artística, como o pessoal do Grupo Galpão, outros, da época em que passou vários meses em um hospital de BH com a filha que nasceu prematura. “Amigos-irmãos”. Hoje, Clara, a filha única (do casamento com o também mineiro Angelo Antonio), tem 21 anos, estuda em Londres e faz psicologia.

“O quintal da casa da minha avó materna era a fazenda, o terreiro, o bloco de Carnaval da família, em Itajubá. E o quintal da outra avó era o Teatro Guaíra, onde fiz balé desde os 8 anos e onde cantei no Coral Sinfônico e fazia teatro”, recorda a atriz que recentemente esteve em “Sessão de Terapia”, terceira temporada.

O que as tragédias gregas dizem em...

MEDEIA

Apaixonada por Jasão, Medeia foge com ele, após matar o irmão. Em Corinto, Jasão se casa com Gláucia, filha do rei Creonte. Cega de dor e de ódio, Medeia mata Gláucia e os filhos.

ELECTRA

Depois de dez anos defendendo a Grécia, o rei Agamêmnon retorna e é morto pela mulher, Clitemnestra e seu amante Egisto. Electra, sua filha, não se conforma e, junto ao irmão, Orestes, planeja a morte dos dois.

ANTÍGONA

Após a morte de Édipo, Antígona, sua filha, retorna a Tebas, onde seus irmãos Etéocles e Polinices disputam a sucessão. Os dois decidem se revezar no poder, mas, em luta, se matam. Creonte, tio de Antígona, assume e proíbe o sepultamento de Polinices. Indignada, Antígona enterra o irmão, mas é descoberta. Creonte manda enterrar Antígona viva. Hêmon, filho do rei e noivo de Antígona, tenta salvá-la. Ele não consegue e comete suicídio.