“Essa aí tem pedigree, amigo”, observa o diretor Marcelo Wanderley, ao comentar sobre a personagem do documentário “A Dona do Tacho”, lançado neste ano. Ele está falando de Nelsa Trombino, fundadora do restaurante Xapuri, em Belo Horizonte, e embaixadora da comida mineira no mundo.

“Sempre observei que não era só um restaurante de cozinha mineira que os turistas gostavam de ir. Tinha uma verdade muito grande em volta das coisas de Dona Nelsa. Ela ficava preocupada com a receita dela ser realizada da forma correta, respeitando as tradições, os ingredientes, a apresentação”, destaca.

Grande admiradora da chef, que, aos 82 anos, está passando o comando (e suas técnicas) para o filho Flávio Trombino, Wanderley enxerga na personagem uma mulher diferente, extremamente dedicada à profissão. “Ela precisava ser levada embora para casa, pois não queria sair do restaurante”, registra.

Para o realizador, Nelsa é sinônimo de uma irrefutável defesa dos modos de fazer das receitas da tradicional cozinha mineira. Ele lembra que, na década de 1990, quando a Vigilância Sanitária tentou proibir o uso dos tachos de cobre para a feitura de doces, a chef “foi lá na frente e disse que não ia tirar, porque os tachos nunca tinham feito mal”.

Ela foi, nas palavras de Wanderley, uma lutadora que enfrentou todas as adversidades nos  35 anos à frente do Xapuri. “Atravessou crises e mais crises, ouvindo gente dizendo que não daria conta, que era mito para ela  sozinha. Com muita raça e sem perder o brilho, sem desanimar, ela já teve que ressuscitar o restaurante várias vezes, mantendo toda a tradição”.

Preservação
Um das preocupações de Nelsa Trombino, como o documentário mostra, é com  a gastronomia mineira perder, com o passar do tempo, a preservação dos modos de fazer e dos ingredientes corretos. A chef não deixa entrar na cozinha dela nada que seja agressivo ao sabor da comida que faz.

Preocupação que se evidencia quando ela pensa no futuro do Xapuri. Antes de passar o comando para o filho, buscou fazer uma transição por meio  de um núcleo de negócios da Fundação Dom Cabral,  assim “preservando a casa dela e a cozinha dela para que continuasse do modo que cuidou a vida inteira”.

Apesar de Nelsa ser paulista de Cubatão, “ela é mais mineira que muito mineiro”, na visão de Wanderley. “É uma mulher que pôs a cozinha mineira no colo e foi parar em vários lugares do mundo, para cozinhar e levar nossa tradição”, afirma.