Nos quase sete meses em que o Cine Belas Artes está fechado, devido à pandemia, Adhemar Oliveira tem agido como um psicólogo com os 17 funcionários. “Você tem que ir conversando para manter o astral elevado. A gente não administra apenas um cinema, mas sonhos também. Sem sonhos, as pessoas entram em crise”, registra o proprietário das três salas no bairro de Lourdes, em Belo Horizonte.

Preocupação que resume muito bem a situação financeira do cinema de rua de 28 anos, marcante na história cultural da cidade por exibir filmes de arte. Se já não era boa antes da interrupção compulsória, em março, ela se agravou pela ausência total de entrada de recursos. “Cinema não é delivery”, assinala. A realização de uma campanha de financiamento coletivo surge como um pedido desesperado de ajuda.

“Sete meses de fechamento é pauleira. Além das despesas de lá atrás, que ainda estavam andando, ficamos sem caixa. Fomos segurando, suspendendo o contrato dos 17 funcionários, sem mandar ninguém embora, e fazendo acerto com um fornecedor e outro. Mas chega um momento que fica insustentável”, lamenta. Vários cineastas de todo o Brasil foram convocados para ajudar com depoimentos.

A campanha será dividida em três etapas, com as duas primeiras no valor de R$ 200 mil, cada, e a última, de R$ 100 mil. Meio milhão de reais que será investido em manutenção, reparos, troca de poltronas, revestimento acústico e telas, além de pagar dívidas de imposto, aluguel e benefícios aos funcionários, acumuladas nesses sete meses. A ação prevê ainda nova decoração e atualização de equipamentos sonoros e de projeção. 

Vazamento
A adesão imediata encheu o exibidor de confiança, apostando no carinho dos moradores por seu ícone cultural para dar uma reviravolta. Com a notícia do crowdfunding vazada na sexta-feira, ele teve que antecipar para o fim de semana o início da campanha. “Iniciaríamos na segunda, mas as pessoas começaram a perguntar, a perguntar.... Foram 40 contribuições só no sábado e domingo”, registra.

Para ele, um cinema nunca deve ser visto como uma atividade privada. “Ele é uma entidade pública. Tenho experiência em administrar cinemas e se você vai mexer num imóvel como o cinema, tem que mexer com cuidado, porque as pessoas casaram ou se conheceram ali. As lembranças afetivas são enormes”, observa Oliveira, que está à frente do espaço há seis anos.

Sofrimento é quase sinônimo de fazer cinema independente, salienta. “Mas conseguimos tocar até março. A pandemia não estava no nosso script”, analisa. Um último suspiro será dado antes do resultado da campanha, com a pintura e a troca de poltronas antes da reabertura. “Qualquer convalescente tem que passar batom para sair na rua, para dar um injeção de ânimo”.