Ainda envolta em névoas, a guerrilha do Araguaia inspira o livro-reportagem “Araguaia – Histórias de Amor de Guerra” (Record, 504 páginas, R$ 58), do jornalista Carlos Amorim, que lança um olhar – e talento – sobre o mais importante movimento armado de resistência à ditadura militar, instalada no país em 1964.
 
Levada a cabo pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B), no interior do país, a guerrilha, para o escritor, foi marcada pela falta de uma história oficial. “Essa história se passou toda em segredo, em silêncio completo. Foi o mais longo, maior e mais feroz episódio de resistência contra o regime”. Até hoje, lembra ele, inexiste um número preciso de mortos e desaparecidos. “Não há nenhuma contabilidade de feridos”, observa Carlos.
 
O autor lembra que a guerrilha era levada muito a sério pelo Exército, até pelo contingente elevado de militares enviados à área de conflito. “Para combater a guerrilha comunista no Araguaia, as Forças Armadas enviaram efetivo entre 10 mil e 15 mil. Foi a maior mobilização de combate do Brasil, após a Segunda Guerra Mundial (a Força Expedicionária Brasileira enviou à Itália 25 mil homens). Bombardearam a floresta (Amazônica) com bomba de fragmentação e napalm. Existe um filme feito pelo exército, no qual aparecem os aviões bombardeando”, explica o jornalista, que registra, em seu currículo, passagens pelo jornal “O Globo” e pelas emissoras de TV Globo, SBT e a extinta Manchete. 
 
Em “Araguaia”, o autor identifica os erros estratégicos e de avaliação do PCdoB para tentar a derrubada do regime, por meio de uma guerrilha rural. Diz que o partido (dissidência do Partido Comunista Brasileiro, ainda no início da década de 1960) adotou a linha política do Partido Comunista Chinês, baseada na revolução camponesa, e tentou aplicá-la ao Brasil. “Cercando as cidades pelo campo, uma estratégia de guerra popular prolongada, como na China e no Vietnã, no Brasil, com essas mesmas características. Funcionava para países pré-capitalistas, nos quais a agricultura primitiva era importante na economia”, pontifica. 
 
Ele também comenta que a guerrilha começou em 1966, antes da intensificação da luta armada no país, e que e as últimas tropas se retiraram da região em 1975, após três expedições. E que chegou ao seu fim, em 1976, no “Massacre da Lapa”, na capital paulista, com a morte de dirigentes do partido comunista pelos órgãos de repressão.
 
Em mais de dez anos de pesquisa, Carlos conta que houve postura heróicas dos dois lados do conflito, que ainda mexe mentes e corações no Exército e na esquerda. “Foram combates violentos. Morreram militares. Oficiais de alta patentes foram feridos. Foram batalhas ferozes de 1972 a 1975, episódios de combates no meio da selva, ambiente extremamente hostil. Houve postura heróica nos dois campos das batalhas. Um major do exército perfilou a tropa diante de uma guerrilheira morta e disse ‘isso que estão vendo é um soldado de verdade, jamais serão como ela”, assinala.