Após “1917” – principal estreia de hoje nos cinemas – ganhar o prêmio principal do Sindicato dos Produtores dos Estados Unidos, tornando-se o grande favorito ao Oscar, o debate se intensifica sobre aquilo que seria o seu maior predicado: o meticuloso trabalho de produção que possibilitou um plano-sequência de pouco mais de duas horas.

A câmera, aparentemente, não para de rodar um segundo sequer, acompanhando dois militares ingleses na Primeira Guerra Mundial e que recebem a missão de passar pelas fileiras alemãs e evitar que um batalhão seja dizimado num determinado ponto da França. Não há nenhuma mudança de plano ou corte visível de edição.

Evidentemente foram feitos cortes, realizados de maneira quase imperceptível, pois a ação se desdobra num espaço de 24 horas. Alguns artifícios são usados para fazer saltos no tempo – o principal deles acontece quando a câmera exibe o avanço do relógio a partir do movimento de sombras no chão, de acordo com a posição do sol, e da mudança na luz.

Seria então, se confirmada a estatueta em 9 de fevereiro, quando acontece a cerimônia do Oscar, a vitória da técnica cinematográfica sobre “inimigos” como a Netflix, em que só seria possível desfrutá-la em sua totalidade numa telona? Seria o triunfo da afirmação da magia do cinema e sua vocação como fábrica de sonhos?

O grande mérito de “1917” está em como as cenas são arquitetadas, nos fazendo acompanhar (os amantes do cinema) a complexidade da estrutura de uma trincheira e compartilhar todos os receios dos dois soldados escalados para a missão. Tomamos contato com a máquina da guerra a partir deste inusitado ângulo.

Seríamos testemunhas privilegiadas destes bastidores, que se refletem na maneira como os personagens se deparam com vários “encontros” mágicos, na forma de pessoas e acontecimentos, e serem obrigados a passar por todos eles sem saber se conseguirão chegar ao destino deles, o que impedirá a morte de centenas de militares.

Eles passam pela chamada “terra de ninguém” (o espaço entre duas trincheiras de forças opostas), um piloto nazista, um franco atirador e uma solitária garota francesa. Em cada um destes momentos, mesmo com a câmera sem desligar, enxergamos uma certa beleza em algo que ficará para trás e será guardado apenas na memória.

A câmera em contínuo movimento se impõe como a Grande História a empurrar os personagens, a exigir aquela parte heróica que será impressa nos livros, transformada em números. Enquanto isso, no meio desta correria por vezes vertiginosa vislumbramos os pequenos gestos, o silêncio que parece dizer tudo e uma história pessoal muita rica.

Não é por acaso que a narrativa começa num general (Colin Firth) e se encerra em outro (Benedict Cumberbatch), como se fizesse uma linha reta. A batalha se define nesta ligação, mas as 24 horas com os cabo Blake (Dean-Charles Chapman) e Schofield (George McKay) explicita muito mais que uma missão, fazendo deles mais do que hordas de soldados que enchem a tela.