Por mais que o trabalho dela ganhe o mundo, ao viajar, conhecer outras culturas, a escritora e professora Ana Elisa Ribeiro continua sendo, como ela mesmo gosta de definir, “muito Renascença”. 
 
Com mais de 40 anos de vivência no bairro da região Nordeste de Belo Horizonte, ela foi uma escolha natural para capitanear um livro sobre a história do Renascença, lançado pela Conceito Editorial, dentro da coleção “BH. A Cidade de Cada um” e que foi lançado na última semana.
 
Ana Elisa não sabe dizer exatamente o que é ser do Renascença, mas logo fica exposto uma visão de “quem é de fora”, como se tudo que não estivesse dentro da Avenida Contorno – primeiro marco limítrofe de Belo Horizonte– não fosse da cidade. “A história oficial exclui a gente. Até hoje você ouve alguém dizendo que irá ‘à cidade’, para dizer que está indo ao centro”, observa a escritora, que viu seu bairro parar no tempo, como se ainda fosse uma cidade do interior em plena metrópole.
 
“Aqui temos uma movimentação de interior. Os meninos ainda brincam na rua, jogando bola com o gol feito de chinelo. As casas são baixas – o lugar mais alto continua sendo a torre da igreja –e a gente ouve o sino a batendo às 18h”, destaca.
 
Mas o livro, embora cheio de referências, não busca contar toda a trajetória do bairro. Ana Elisa resume esse olhar nas primeiras páginas do livro: “A experiência de nascer, viver e morrer no mesmo chão merece uma visada mais poética”. 
 
A história brota naturalmente das lembranças da autora, pertencente à quarta geração de uma família que ajudou a “fundar” o bairro, como os operários da fábrica que deu nome ao bairro e que habitavam as vilas construídas no seu entorno.
 
“Ainda pude ver o bairro se desenvolver, com vários lotes vagos, onde costumávamos brincar. Aproveitávamos as construções para brincar de polícia e ladrão”, rememora a escritora, para quem os moradores até hoje não sabem onde o bairro começa e termina, e pouco importaram com o fato de o Renascença nunca ter existido – pelo menos nos registros de cartório, onde se lê Mello Viana. “Morar no Renascença é um mistério. Sempre esteve lá, sem que ninguém o percebesse direito. E isso tem o seu lado bom”, diz.