Entre as várias definições de “A Vida Invisível”, filme de Karim Aïnouz escolhido para representar o Brasil no Oscar 2020, uma delas é a busca do outro na ausência, a partir da história de duas irmãs que são violentamente separadas por décadas.

Cada cena que vem a partir desse episódio é exemplar de uma luta interior para que essa afetividade nunca se apague. Um dos desafios do filme é manter esse vínculo como fio condutor, por mais que as vidas delas tentem seguir outro curso e o próprio espectador veja nesta ideia a melhor saída.

Como só acompanhamos a convivência delas em três cenas, a consequência desta separação vai sendo construída de diversas maneiras, da fotografia suja, simbólica do conservadorismo que as levou a destinos diferentes, às incessantes cartas escritas por uma delas.

À medida que o tempo passa, a dor e o desespero as consomem ainda mais. O destino também parece agir contra esse reencontro, quando são inseridas em classes sociais diferentes. A pobreza de uma, porém, parece ser o seu alimento para a sobrevivência.

Já o poder social de outra só escancara os valores machistas, que a impedem de fazer o que mais gosta (tocar piano) para virar uma dona de casa. Há amor e companheirismo nos extratos mais baixos e mentira e sujeição feminina nos mais altos.

“A Vida Invisível” é um filme de alma feminina, sobre privações seculares a partir da impossibilidade de duas irmãs se amarem. Essa dor deságua numa cena muito forte protagonizada por Fernanda Montenegro, que parece retomar a Dora de “Central do Brasil”, longa de 1998 que concorreu ao Oscar.