Instituto Moreira Sallesl
Confraternização nos arredores de Diamantina

Está de casa nova parte da história de Diamantina, durante a passagem do século 19 para o 20, que mostra um Brasil interiorano mas próspero – conforme registrado pelo fotógrafo mineiro Francisco Augusto Alkmim (1886-1978), o “Chichico” Alkmim. Este acervo, com milhares de negativos em vidro e fotografias originais reveladas por Chichico, foi recebido, em comodato, há poucos dias pelo Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio de Janeiro.

Chichico atuou, principalmente, em Diamantina, em um período de grande extração de minério, registrando a paisagem social da cidade e de seus habitantes. “Foi o primeiro fotógrafo residente em Diamantina”, lembra o professor de Fotografia da Escola Guignard e curador Tibério França.

Como se pode ver nas imagens registradas nas páginas, Chichico primou por documentar a classe média-alta mineira com fotografias em estúdio e ao ar livre, sempre com preciosa atenção à luz.

Nascido na área rural de Bocaiúva, Chichico mudou para Diamantina após a decadência dos negócios da família. Ele aprendeu fotografia de forma quase autodidata, se aprimorando com leituras de manuais sobre o assunto. Em 1913, abriu o próprio estúdio, que, por duas décadas, foi o único da cidade.

Mas qual é a importância do acervo de um fotógrafo do interior de Minas e de tão longínquo tempo? “Diamantina foi uma cidade muito rica até o final do século 18. Os primeiros carros de Minas Gerais foram comprados por uma família de lá. Agora, pense também que a fotografia sempre foi alta tecnologia”, avalia Tibério França.
 
Um artista
 
Assim, o artista, que morreu sem ter se considerado como tal, abraçou com seus cliques, de forma rara no país, uma época e um grupo social que era típico daquele período. “Ele jamais falaria disso e dessa forma (sobre se considerar um artista). Ele era de uma delicadeza e humildade fora da curva. Talvez tivesse consciência do que fazia, mas não dava o valor”, acredita outro neto, o geólogo e professor da Escola de Minas da UFOP, Fernando Alkmim. Com a ida do acervo para o IMS, acredita ele, a alcunha de “artista” do avô seja, enfim, oficializada.

“A gente via os negativos guardados em um porão. Era uma coisa muito forte (conviver com aquilo)”, lembra a neta do fotógrafo, a artista plástica e, também fotógrafa, Verônica Alkmim França.

Ela explica que o IMS se comprometeu a digitalizar o acervo em escalas variadas, para não haver necessidade de mexer nas chapas e nas fotos em papel. “Haverá também alguma disponibilidade deste material no site da instituição”. O acervo ficará disponível para análise e projetos de pesquisas. “Somos muito procurados para isso”, diz.
 
‘Carinho’ com foto e com fotografado marcaram trabalho
 
Um fotógrafo “carinhoso”. Assim pode ser definido Alkmim. “Ele pegava uma foto revelada, mas não se conformava e retocava a foto com lápis. Não passava batido a questão da luminosidade. Ele corrigia os tons médios, baixos…”, lembra Verônica França.

E que fotos são estas? “Diamantina e arredores. José Maria Alckmim (foto do menino que segura um livro, de 1918), meu tio era parceiro político de JK”, enumera Verônica ao descrever algumas fotos do acervo do avô. José Maria é o mesmo que empresta o nome ao presídio em Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de BH.

Francisco Augusto Alkmim acompanhou do nascimento à morte de muitos fotografados, inclusive fazendo os retratos dos chamados “anjinhos” – crianças mortas nos caixões. Ele trabalhou até meados dos anos 1950 – sempre de maneira primorosa.
 
Dos sais de prata à película
 
A técnica cara para fotografar e de difícil acesso certamente motivou este artista ao zelo. Tibério França, da Guignard, explica que o uso das “placas de vidro” que compõem o acervo são exemplos disso. Quem tem menos de 30 anos talvez tenha uma distante lembrança destes mecanismos de captação de imagem. Até o final dos anos 1990, lembra, as fotografias eram feitas em “película”. Nesta época, os filmes fotográficos eram de acetato com sais de prata.

Mas antes do acetato, estes sais de prata eram distribuídos em uma placa de vidro rígida e transparente, que vinham da Alemanha de navio até o Rio de Janeiro, e depois para Diamantina, em lombo de burros e mulas. Por isso que uma foto tinha que ser bem realizada”, conta Tibério.

O professor define Chichico como um fotógrafo “muito carinhoso” com os clientes. “Se ele via que a pessoa não estava bem, falava para voltar em outro dia”. Nas pesquisas que realizou junto da família, Tibério soube ainda de um jardim que o fotógrafo cultivava. As flores eram usadas nas lapelas dos homens ou em arranjos de cabelo para as mulheres que ele mesmo montava (foto ao lado da filha mais velha dele, Maria Bernadette Alckmin, que morreu há três anos, aos 95 anos).

“A fotografia estava expandindo no mundo inteiro e aconteceu também na América do Sul, onde os acessos eram restritos. Ali, surge um fotógrafo no nível dos grandes mestres europeus”, avalia Verônica.
 
Além disso
 
O reconhecimento artístico de Chichico Alkmim foi póstumo, em 1983, com a primeira exposição com as fotos dele organizada por seu neto Paulo Francisco Flecha de Alkmim e o professor João Paulo Guimarães Mendes, durante o 16º Festival de Inverno da UFMG. A partir de então, houve o financiamento da recuperação do acervo – ainda sob a guarda da família Alkmim – pela Fundação João Pinheiro, Funarte e UFMG. Nos anos 1990, os negativos foram para o Centro de Documentação do Departamento de História da Faculdade de Filosofia e Letras de Diamantina (Fafidia), em parceria com a UFMG. Em 2005, foi criado por Verônica Alkmim França, o “Projeto Chichico Alkmim”, para divulgação da obra. Ainda naquele ano, foi lançado o primeiro livro, “O Olhar Eterno de Chichico Alkmim”, editado por ela e pelo fotógrafo Flander de Sousa. A publicação rendeu exposições homônimas em Diamantina e em BH. Em 2013, em BH, mais uma exposição: “Paisagens humanas – Paisagens urbanas”, com curadoria de Verônica e do fotógrafo Tibério França.