Quem planeja ir até o estúdio de um dos produtores mais requisitados do país, imagina que vai se deparar com uma superparafernália tecnológica ou uma estrutura diferenciada de isolamento de som. Mas quem adentra o laboratório de som de Chico Neves se depara, na verdade, com a máxima simplicidade. Na saleta de uma casa em Nova Lima, instrumentos e aparelhos, um computador e algumas cadeiras.

“Não preciso de muito para fazer um estúdio. O que tenho no Rio de Janeiro, fui eu mesmo quem levantou”, afirma o produtor, que nasceu em Belo Horizonte em 1960, mas migrou aos 18 anos para a “Cidade Maravilhosa”, onde construiu carreira elogiada como produtor, assinando discos de Los Hermanos, Paralamas do Sucesso, Lenine, Skank...

Qualidade de vida

Há dois anos, Chico Neves trocou o Jardim Botânico por Nova Lima, como uma tentativa de oferecer uma qualidade de vida melhor para o filho pequeno, que tem problemas de imunidade. A mudança foi bem recebida por toda a família e, desde então, muitos frutos têm sido colhidos no ambiente acolhedor de Minas.

“Aqui é lindo, não pego trânsito para nada, vivo relações humanas interessantes, faço amigos e tenho reencontros profissionais legais”, conta Chico, que agora tem focado seu trabalho em artistas mineiros. Desde sua chegada, produziu discos do Falcatrua, de Luiza Brina e o Liquidificador e do Todos os Caetanos do Mundo. Também deu início ao processo de gravação do próximo álbum do Graveola.

“Quando saí de Belo Horizonte, não tinha uma realidade como a de hoje. Tive que sair para trabalhar com música. Hoje, há, aqui, uma cena muito interessante, com nomes como o Todos os Caetanos do Mundo, banda que chegou até mim com uma ótima matéria-prima”, diz.

Lapidação

Durante a conversa com Chico sobre seu processo de trabalho, fica mais fácil compreender porque ele é um profissional tão requisitado no universo da música pop. Qualquer artista que se deparar com sua simplicidade e tranquilidade vai perceber logo que ele não é um produtor para uma gravação rápida.

Chico preza pelo apuro dos detalhes, pela busca do resultado, pela experimentação de sonoridades. Uma “lapidação” feita durante gravações e no trabalho solitário em frente ao computador. “Não gosto de gravações ao vivo no estúdio. Alguns músicos chegam com discurso de que querem gravar olhando no olho, com a captação da emoção do momento, os erros, mas não acredito nisso. Se for assim, o artista não precisa de mim”, diz.

Chico prefere incentivar os músicos a sair da zona de conforto e buscar diferentes caminhos. “O erro é uma limitação que todos já têm. Já o acerto é um desafio a ser alcançado”.

Antes da gravação, um almoço, um café... e muita conversa

 

Adaptado a Minas Gerais, o produtor chico neves nem pensa em voltar ao rio

O grupo Todos os Caetanos do Mundo é um dos que resolveram se deixar guiar pelas mãos de Neves (Foto: Divulgação)

Gravar um disco não significa apenas entrar em estúdio e sair registrando as performances musicais. É processo que envolve prazer, criatividade e intimidade – fatores que o grupo Todos os Caetanos do Mundo encontrou no estúdio de Chico Neves.
“Ele se tornou um grande amigo. A gente chegava lá e não ia direto para o estúdio. Almoçava, tomava café, conversava e só depois ia gravar”, conta Júlia Branco, integrante do coletivo que nasceu a partir de versões para composições de Caetano Veloso.

Ansiedade

Esse trabalho delicado foi importante para driblar a ansiedade do grupo, que entrava em estúdio para registrar o primeiro álbum completo. “A gente chegou querendo gravar tudo em três meses, mas, com o Chico, vimos que o disco tem que ficar pronto quando realmente estiver pronto. Vimos que é preciso passar por todo processo”, diz a cantora, completando que as dez músicas selecionadas para o repertório acabaram se transformando bastante durante o processo de produção.

O público poderá conferir o resultado esta semana, quando “Pega a Melodia e Engole” será disponibilizado na internet. O lançamento oficial acontece dia 25 deste mês, no Teatro Bradesco (Rua da Bahia, 2244, Lourdes).

Luiza Brina

Neste momento, a cantautora Luiza Brina trabalha com Chico Neves em duas frentes: seu segundo disco solo (assinado com a banda O Liquidificador), que está na fase de edição, e o novo trabalho do grupo Graveola e o Lixo Polifônico, em fase de gravações.

“O Chico é, sem dúvida, um dos maiores produtores musicais do país”, afirma a artista. “Ele dá vida criativa às maquinas de gravação, sempre inventando e experimentando maneiras de deixar os instrumentos com timbres e sons interessantes para cada música. Ele trabalha com muito carinho, cuidado e vontade – além de ter uma experiência gigante”. No caso específico desses dois álbuns, ainda não há previsão de lançamento.

 

Adaptado a Minas Gerais, o produtor chico neves nem pensa em voltar ao rio

A cantautora "laçou" Chico Neves para dois trabalhos que prometem (Foto: Divulgação)

Agenda para Arnaldo Antunes, Herbert Vianna e Os Moraes

O fato de Chico Neves ter se mudado para Minas Gerais não o impediu de continuar trabalhando com músicos de outros Estados. Recentemente, recebeu Arnaldo Antunes (que fez uma participação na faixa-título do disco do Todos os Caetanos do Mundo) e Herbert Vianna (que grava um disco com músicas em inglês).
Quem lançou recentemente um álbum chancelado pelo mineiro foram Moraes Moreira e o filho, Davi Moraes. “Nossa Parceria” é um desdobramento do projeto “2xMoraes”, que recebeu recursos da Lei Rouanet para circular pelo país e desenvolver um álbum de material inédito.

Parceria de vida

“Sabíamos que alguma hora faríamos o registro dessa parceria de vida”, afirma Davi, músico que já acompanhou nomes como Adriana Calcanhotto.
No repertório do álbum, estão algumas parcerias entre os Moraes, músicas feitas isoladamente ou com outros parceiros – “Centro da Saudade”, por exemplo, foi feita por Davi em parceria com Carlinhos Brown e Pedro Baby (filho de Baby Consuelo e Pepeu Gomes, parceiros de Moraes no Novos Baianos) –, além de uma versão para “Bossa e Capoeira”, de Batatinha.

Novo rumo

O desenvolvimento de “Nossa Parceria” começou no momento em que Davi Moraes estava em estúdio com Chico Neves para a realização do que seria seu terceiro álbum. Quando chegou a notícia de que a Petrobras patrocinaria o projeto da família Moraes, houve uma mudança de rumo.

“Quando o projeto saiu do papel, propus a ele: ‘Pai esse disco é nosso! Vamos juntar com o Chico e fazer desse o nosso disco’, explica Davi.

“Não teria sentido começar do zero, até porque já estávamos adorando o que tínhamos feito até ali. Meu pai adorou a ideia e topou na hora. Começamos a selecionar o resto do repertório, convocar os músicos e fomos para o nosso playground, o estúdio”, acrescenta.

 

Adaptado a Minas Gerais, o produtor chico neves nem pensa em voltar ao rio

Davi convidou o pai para transformar o álbum que vinha gravando (Foto: Marcos Hermes/Divulgação)