A Branca de Neve é, digamos assim, meio “punk”, com uma granada em mãos. Já o busto do líder chinês Mao Tsé-Tung é sisudo, vermelho... mas tem seios. Desde o início do ano, uma pequena sala, em Nova Lima, abriga pelo menos mil destes brinquedinhos que fazem pensar. Trata-se, na verdade, de uma galeria – a primeira de toy art de BH e, atualmente, a única do segmento no país.
 
Não é um espaço destinado a crianças. As peças lúdicas, mas agressivamente questionadoras, vêm de várias partes do mundo e carregam a assinatura de artistas consagrados no meio. É quase tudo de plástico – ou melhor, vinil – com numeração e certificado de autenticidade, do próprio punho dos criadores.

Alguns toys são únicos no planeta. Plaquinhas com um “por favor, não toque” delimitam a importância. Além do vinil, há (poucas) peças em tecido, metal e até madeira. São esculturas fortemente marcadas por algum tipo de sentimento. “The Rise of Pain in Dreams” é uma das mais tocantes.

Posicionada logo na entrada da casa, mostra um belo e jovem skatista, com a pele em vinil cinza, cheio de ataduras, venda nos olhos e deitado em um colchão. É dramática, a cena. “Algumas peças têm muita violência, tanto que, quando alguém vem nos visitar e diz que vai trazer o filho pequeno, fazemos uma classificação etária, separando alguns toys”, avisa o advogado e contador Luiz Fernando Coelho, um dos nomes por trás da iniciativa.

“No mundo, existem apenas 200 unidades desta escultura criada por dois artistas alemães”, aponta Luiz. O detalhe é que a dor na cena representada na peça foi captada do sonho do personagem. Personagens fictícios, sentimentos reais. “São esculturas para adultos voltadas para o colecionismo e a decoração, e que guardam este ar lúdico”, diz Luiz.

Logo que se casou com a fisioterapeuta Marina Pacheco, Luiz foi seduzido pela paixão pela toy art. Arrebatado, o casal largou as respectivas profissões para encarar a brincadeira mais que séria desta galeria batizada WTF Plastic Co. “Na hora de escolher alguma peça para comprar, nosso gosto é muito parecido, a gente concorda sempre”, observa Marina.

Para ver tudo, tem que marcar uma visita. Ou virar um colecionador. Quem sabe, um artista da área para criar o próprio toy? Assim fazem os mineiros que você vai conhecer a seguir.
 
Toys do mundo todo fazem a cabeça de colecionadores
 
Na WTF, a galeria aberta “em família”, Luiz Fernando Coelho e Marina Pacheco comercializam alguns toys, mas não todos. Porém, este processo se dá pela internet. No acervo do casal, além das peças “invendáveis”, há toys que vão de R$ 25 a R$ 6 mil.

Alguns raros toys já receberam altos lances em casas de leilão como a tradicional Cristie’s. “Soube de um com cinco metros de altura que foi arrematado por 300 mil dólares. Era um KAWS”, lembra Coelho, sobre um dos maiores nomes da toy art no mundo, e de quem tem peças pequenas no acervo.

Hobby para poucos

Quem também conhece o preço de ouro dos toys é o engenheiro civil e colecionador Paulo Marinho. Na casa dele, em Belo Horizonte, há mais de 500 toy art. De “action figure” são 2 mil bonecos que reproduzem personagens do cinema e dos quadrinhos.

E para aqueles que acham este hobby é coisa de gente “que não viveu a infância”, Marinho manda um recado irônico: “Minha infância foi excelente. Mas hoje sou uma criança que tem talão de cheque”.

Com a paixão, admite o engenheiro, a casa tem mais a cara dele do que da esposa. “‘Mais um?’. Ela fala isso quando chego com mais uma peça”.

Os amigos de Marinho também questionam: “Mas você coleciona boneco?”. “Isso acontece porque a maioria das pessoas ainda não tem a percepção do que é arte. Esse conceito ainda é para um grupo bem limitado formado por pessoas mais maduras e que têm o recurso para sustentar este hobby”.

Mais de R$ 100 mil foram investidos no acervo espalhado sob o teto doméstico de Marinho, que na última viagem que fez aos Estados Unidos trouxe pelo menos cinco malas com as peças. “O toy é uma Barbie cara”.

Bolinha de gude

Bolinhas de gude coladas com massa plástica viram bibelôs no Brasil. Foi deles que o artista plástico setelagoano Álvaro Tomé tirou inspiração para toys que começa a criar e que estão expostos em São Paulo há uma semana, na Galeria Contempo.

“Os elementos que trabalho na pintura são próximos da toy art e sugerem esculturas”, explica. Daí saltou da tela o “primeiro filho”, um Batman gordinho feito em resina e fibra de vidro. Na exposição da capital paulista, dois bonecos foram vendidos logo de cara. Em breve, o artista vai expor na galeria de Nova Lima.

“Joguei bolinhas de gude. Agora faço esculturas com esta inspiração”. Os próximos toys serão do passarinho Woodstock e do Capitão América. Mais um herói gordinho? “Como todos serão”, avisa.