Anna Muylaert é hoje uma referência do feminismo no Brasil. Embora não seja uma ativista de carteirinha, a cineasta paulista de 52 anos acabou sendo envolvida pela questão com as discussões sobre “Que Horas Ela Volta?”, quando ela e sua protagonista Regina Casé receberam observações sarcásticas de dois colegas na plateia, durante debate realizado em Recife, no ano passado.

O filme provocou fortes discussões não só sobre o papel da mulher, mas também em relação à luta de classes, com as várias conquistas dos setores mais pobres do país nos últimos 20 anos. Recém-convidada para integrar a Academia que elege os prêmios do Oscar, tornando-se a primeira diretora brasileira do grupo, Anna lança nessa quinta-feira seu mais recente longa, “Mãe só há uma”, que aponta para conflitos geracionais numa perspectiva muito atual.

 

Inspirado num caso real ocorrido em Brasília, sobre o roubo de um bebê na maternidade e a descoberta de seu paradeiro 16 anos depois, “Mãe só há uma” busca ao máximo não julgar a sequestradora, sublinhando a ação abrupta de tirar um garoto de sua mãe “adotiva” ao devolvê-lo aos pais biológicos.
Foi uma ação violenta do Estado, assim, claro, como foi a do roubo, mas realmente não julgo. Minha história parte dos adultos, que criam um mundo muito estragado para as crianças. Como o garoto irá lidar com isso? Como refazer a sua vida aos 17 anos? Meu filme é sobre a obstrução de identidade. Tudo que lhe ajuda a se definir, como nome, escola e família, é alterado em pouco tempo por outros, saindo de uma relação vertical de afetividade com a sua mãe. O único com quem consegue criar um laço afetivo na nova família, sem ser uma autoridade, é o irmão.

Por que você escolheu a mesma atriz para fazer as duas mães? Para mostrar que nenhuma delas é melhor do que outra?
O título é meio irônico ao falar que mãe só há uma, quando um menino passa a ter duas. Mas o que quero mostrar é que, mesmo que ele troque de mãe, repetem-se padrões. Do ponto de vista humano, elas são a mesma coisa.

Em sua adaptação, você acrescentou um elemento inexistente na história original, sobre a indefinição sexual do personagem. É uma forma de reforçar a ideia de que a adaptação não é só do garoto, mas dos pais também, que recebem em sua casa uma pessoa com seus gostos e ideias já formados?
Na verdade, o filme é bem complexo. Na primeira parte, mesmo confortável em sua casa, ele fica no armário. Só quando ele se sentir deslocado que irá sair do armário. De alguma fora, essa passagem é simbólica de toda adolescência. Quando se fica adolescente, é muito difícil cumprir com as expectativas dos pais, que passam a ter uma atitude restritiva e censora. Não fosse essa questão, não seria possível se identificar com o personagem. Ele tem uma história muito específica, pois ninguém troca de mãe. No entanto, quando isso vem acompanhado de algo pelo qual todo mundo passa, sobre conflito de gerações, é mais fácil se identificar.

O personagem assume uma postura ambivalente, não escolhendo qual caminho seguir em relação à sua orientação sexual, o que é bem típico dessa geração que sai com meninos e meninas, sem distinções.
Depois que eu tive filhos, fiquei 20 anos afastada da noite e voltei com um cenário muito diferente da minha época, em que as pessoas eram heteros, gays ou lésbicas. Hoje, se a menina fica com outra não quer dizer que ela é lésbica. Percebo que eles hoje sentem mais segurança para exercer sua liberdade, sem rótulos. Quando fizemos a leitura do roteiro do filme, alguém perguntou se ele (o protagonista) era gay. Havia essa necessidade em ter uma resposta, uma definição. Mas o filme não quer isso, não quer dar essa resposta.

“Mãe só há uma” é bem diferente de “Que Horas Ela Volta?”, seu trabalho anterior, que é mais discursivo, até politicamente. Agora, você busca ao máximo não se posicionar, não é verdade?
“Que Horas Ela Volta?” é um filme mais clássico, que critica severamente o jogo social. Apesar de podermos dizer que a dona da casa onde a Val trabalha seja uma vilã, não busco julgar os jogadores, mas sim o jogo. EStá sendo muito complicado lançar esse filme após “Que Horas?”, pois as pessoas irão ao cinema com uma expectativa. “Mãe só há uma” é um filme de baixo orçamento, pequeno, em que gastei 1/4 do outro filme. É mais ousado, com elenco todo desconhecido e câmera na mão. Confesso que estou meio apreensiva, de as pessoas se decepcionarem ao esperarem ver a mesma coisa. A repercussão que o outro teve não exerceu influência nenhuma, pois os dois foram feitos quase paralelamente. “Que Horas?” continua acontecendo, com muitos convites para debates. Não há um dia que não receba um (convite).

Recentemente você foi convidada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles, organizadora do Oscar, para fazer parte do grupo de eleitores. Como vê o fato de ser a primeira diretora brasileira a integrar a Academia?
Isso é muito bom porque eles querem aumentar a representatividade da sociedade ali dentro. Perceberam que os brancos, heteros e ricos ficaram isolados, esvaziando a festa. Não sou de ligar muito para Oscar, mas será divertido. É algo folclórico. Mas aceitei pensando mais em abrir portas para outras diretoras.