“Sem demagogia me sinto vitorioso por estar em BH e viver de teatro”, afirma o ator mineiro Amauri Reis, que completa 35 anos de carreira. Para comemorar a data, ele estreia o solo “Boa Noite Cinderela”, hoje, no Teatro Marília. Ao contrário do que o nome sugere, não é um espetáculo infantil, mas um trabalho que levanta temas como perda, solidão, vergonha, homofobia, entre outros.

Conhecido pela veia cômica, Amauri utiliza sua leveza para tratar de assuntos mais pesados. Na peça ele interpreta um bancário cinquentão e bailarino clássico amador que, após conhecer um rapaz em uma boate, cai no golpe do “boa noite cinderela” e acorda sozinho e sem nada. “O conflito dele é como contar para a família, os amigos e colegas de trabalho o que aconteceu, pois vão descobrir que ele é homossexual. Será que vão aceitar?”, explica o ator. 

Esse é o pano de fundo para aprofundar em assuntos atuais. “Ele fala da solidão moderna dos conectados virtualmente, do sentimento de vergonha e culpa que muitos vivenciam, e de homofobia”, enumera.

A trama se passa em um apartamento. No cenário, muitas gavetas espalhadas para mostrar que lhe roubaram tudo. “Até os sentimentos”, reforça Reis. O personagem só acorda após três dias, vestido de bailarina. “Mas ao mesmo tempo ele está falando de suas dores e do não reconhecimento. É uma comédia poética. Não queria fazer algo da graça pela graça”, afirma.

“Boa Noite Cinderela” no Teatro Marília (av. Alfredo Balena, 586). Até 31/7, de quinta a sábado, às 21h, e domingo, às 19h. Ingresso: R$ 40 e R$ 20 (meia)

Parcerias

Para viver essa história, Amauri se cercou de amigos. A encomenda do texto foi feita ao ator Carlos Nunes, e a direção ficou a cargo de Inês Peixoto. “São amigos de vida, antes da profissão. Para comemorar 35 anos não poderia estar com outras pessoas”, considera o ator, que antes de estar no palco vivenciou intensamente os bastidores. “Limpei muito chão, fiz luz, fui contrarregra. Tudo para viver de teatro, pois esse sempre foi meu desejo”, diz, emocionado. 

Aos 55 anos, ele continua enfrentando desafios para colocar sua arte no palco. Para essa peça, fez aulas de balé. “Faço ponta no espetáculo. Mesmo com tudo indo contra, eu decidi me reinventar. Isso me move”, garante. A trilha sonora é costurada por músicas clássicas, em contraste com músicas populares de Maria Bethânia e Gonzaguinha. “Elas estão modificadas e ganham um novo significado. Tudo na peça está no campo simbólico”, alerta. 

No final, o trabalho é um convite a reflexão. “Finalizo com um sutil soco no estômago. Quando as pessoas se revelam e mostram quem elas são”, adianta. “Desejo que as pessoas questionem o riso. Se eu tocar pelo menos uma questão em cada pessoa já fico feliz”.

Amauri Reis 1
Amigos de Infância – Este é o segundo espetáculo que Inês Peixoto, atriz do grupo Galpão, dirige Amauri Reis; o primeiro foi “Vexame”