Passar na locadora mais próxima e pegar alguns filmes em DVD para assistir no fim de semana. Alternativa de lazer muito comum há dez anos, as videolocadoras não existem apenas na memórias dos “mais antigos”. Apesar de a grande maioria das lojas ter fechado as portas, ainda é possível buscar um filme que você só encontrará no velho formato em DVD.

Para a surpresa de muitos, as distribuidoras continuam a lançar filmes neste formato físico, alimentando locadoras que resistem ao streaming e ao Video on Demand, entre elas a Star Video e a ArtVideo, ambas em Belo Horizonte. O que une Randolpho Paiva e Marlene Lisboa Gomes, proprietários dessas lojas, é o amor incondicional à sétima arte.

“Eu só sobrevivo porque sou apaixonado por esse negócio”, observa Paiva, de 60 anos, há 27 anos à frente da Star Video, no bairro Luxemburgo. Marlene, da ArtVideo, na Savassi, bem que tentou se desfazer de parte do acervo, mas acabou comprando tudo de volta. “É ruim quando o cliente pergunta de um filme e não temos para oferecer”, explica.

Sentimento parecido tem Paiva quando falta um título importante entre os mais de 20 mil que exibe na loja. “Se me ligam e eu não tenho, fico puto! Aí fico tentando achá-lo depois”, registra. Em se tratando de filmes de arte, especialmente os clássicos, a locadora continua sem concorrentes. Para os donos, é esse material que as mantém de pé, resistindo às novas tecnologias.

“Onde mais vão encontrar filmes de diretores como (Federico) Fellini e (Woody) Allen? E os grandes clássicos do cinema? São coisas que você não acha no streaming, não. É assim que sobrevivo. Então aproveitem enquanto eu estiver aberto”, avisa Paiva, para quem a Netflix, nova darling dos cinemaníacos, presta um desserviço.

Sem democracia

Ele cita como exemplo o badalado “Roma”, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro. “As pessoas falam que a internet é democrática, mas quem não tem Netflix não poderá ver (o filme), já que ela não lança em DVD”, lamenta. Paiva lembra que, antigamente, os filmes obedeciam a um determinado circuito, passando por cinema e locadora até chegar à TV aberta.

Marlene também é taxativa: “A Netflix não tem todos os filmes. Quando entram na minha locadora, os grandes diretores estão separados por prateleiras. São os filmes diferenciados que seguram a nossa clientela”, salienta. Não é só. Há quem prefira ir à locadora para também bater papo sobre cinema.

“O atendimento é outro diferencial. Às vezes alguém chega e me pergunta sobre um filme que tinha uma história assim e assado e eu me lembro do nome. Geralmente tenho na locadora”, comenta Paiva.

No interior de Minas Gerais, é a mesma coisa: acervo e bom atendimento são um plus. Dos 14 mil títulos da Excalibur Video, em Juiz de Fora, cinco mil são filmes de arte. “É esse tipo que mais gira em minha loja. Há muita gente aficcionada por cinema”, assinala Marcelo Espíndola. Para sobreviver, ele também diversificou o negócio, dividindo o local com uma cafeteria, uma livraria e espaço para eventos.

Locadoras antigas como Star Video e ArtVideo contam hoje com um acervo de 20 mil e 10 mil títulos, respectivamente, formado em boa parte por clássicos não disponíveis em plataformas digitais

Frequentar espaços dá a possibilidade de fazer amigos e contar a história da cidade

Para Moema Breves, ir à locadora de DVD é uma questão ideológica. “Gosto de dizer às pessoas que existe um mundo lá fora além da tecnologia”, afirma a empresária de 38 anos, que frequenta a ArtVideo há pelo menos 15 anos.

A passagem pela locadora é vista como um “luxo”, algo que está no “âmbito do prazer”, ao se referir à possibilidade de fazer amigos que compartilham dos mesmos gostos. “Acabamos sempre trocando insights lá dentro”, destaca.

A locadora, segundo Moema, é uma forma de contar a história dela com a cidade, especialmente em relação à memória afetiva. “Passei a minha infância vendo bons filmes. Sempre gostei de filmes de arte”, lembra.

Randolpho Paiva

Randolpho Paiva destaca que o atendimento é um diferencial das locadoras


História do cinema

A ideia de ver os filmes por diretor é algo que sempre a atraiu. “Conheci a obra toda de (Ingmar) Bergman ainda jovem. Isso me ensinou muito. Poder assistir a história do cinema brasileiro por etapas. Cinema brasileiro não é só ‘Tropa de Elite’ e ‘Cidade de Deus’”, pontua.

Outro aspecto que a empresária vê como diferencial nas locadoras de vídeo é a curadoria. “Se eu não tiver nada em mente para assistir, a Marlene (Gomes, proprietária da ArtVideo) certamente vai ter uma sugestão, porque conhece o meu perfil. É difícil de ela errar”, elogia.

Moema nunca “baixou” um filme na vida. Além de ser contra a pirataria, o download ilegal, ressalta, não remunera os detentores dos direitos autorais. “Quem criou a obra merece esse crédito. É uma questão de ideologia mesmo”.

Raridade

Para felicidade da cliente assídua, Marlene não pretende fechar a locadora, mesmo quando as distribuidoras pararem de lançar filmes. “Vai se tornar uma raridade e isso chama a atenção também. Veja o caso dos vinis, que voltaram à moda hoje”, aposta.

Se Marlene, porém, mudar de ideia, ela já tem em Moema uma sucessora. “Se ela cansar, assumo o ponto imediatamente. Não farei isso para ganhar dinheiro. Farei por amor ao cinema e à locadora”, vislumbra.

Amor que fez a empresária criar uma espécie de cinema em casa, com projetor e telão. Apesar de acessar a Netflix, ela não tem TV por assinatura e não assiste TV aberta. “Fiz essa escolha e tento repassar isso para os meus filhos”.

Moema Breves

Moema Breves diz que não deixará a locadora preferida fechar e tomará conta do negócio, se for preciso

Além Disso

“Mercado com novidades toda hora está com os dias contados. No máximo, até o final de ano”, lamenta Marcelo Espíndola, da Excalibur, para quem as locadoras estão no apagar das luzes.

A pá de cal, segundo ele, será no momento em que as distribuidoras começarem a interromper os lançamentos em DVD. “Não será vantajoso para elas fazer mídia física para um mercado de 200 locadoras no Brasil”.

Distribuidoras de filmes de arte como Imovision e Califórnia estão sem lançar novos títulos desde o fim do ano passado, mas ainda não decretaram, oficialmente, o fim da mídia.

“A demanda está muito pequena. Assim que tiver algum produto pertinente, e que vale a pena, vamos lançar”, explica Euzebio Munhoz Jr., diretor da Califórnia, que está há três sem novidades no formato.

São justamente as fitas de arte o diferencial das locadoras hoje em dia. “Se (as distribuidoras) pararem de lançar, também terei que parar”, lamenta Randolpho Paiva, da Star Video.

As chamadas majors (distribuidoras internacionais)ainda não pararam de lançar filmes. Uma das atrações das locadoras neste mês, por exemplo, é “Aquaman”. Mas a quantidade de cópias não é mais a mesma.

Paiva estuda fazer parceria com algumas distribuidoras independentes por considerar que há títulos de boa saída que foram lançados nos cinemas e ainda estão inéditos em DVD. Ele cita como exemplo o japonês “Assunto de Família”, de Hirokazu Kore-eda, um dos filmes mais solicitados na locadora dele.