Se tem um fã número 1 de Antonio Pitanga, ele responde, sem dúvida, pelo nome Camila. Parece óbvio, por ela ser filha do ator que emprestou o rosto a tantos personagens do cinema, do teatro e da TV. Mas no documentário “Pitanga”, dirigido pela moça e em cartaz nos cinemas, percebe-se como o carinho transcende a relação filial, como ela mesma faz questão de frisar nessa entrevista ao Hoje em Dia.

“Parte do afeto, mas também fala do homem, de uma geração, de um representante do bem viver, de um tipo de resistência... Pitanga é um respiro nesse mar de sufocamento que vivemos hoje, nos fazendo olhar para o futuro com otimismo. Ele venceu como um artista negro e isso nos inspira”, observa Camila Pitanga, que compartilhou a direção do documentário com Beto Brant.

No auge do sucesso, o ator baiano, hoje com 77 anos, criou Camila e Rocco, dividindo-se entre o trabalho e a casa. “Tê-lo ali em casa, quando pequena, era algo normal. Só fui perceber o que havia de especial nisso com o filme, que me fez olhar de novo para esse homem, esse artista, que também era um pai. Ele era todas essas pessoas com pungência”, registra Camila, que várias vezes acompanhou o pai nas filmagens.

Ela lembra que foi criada com mingau de chocolate pela manhã, vendo seu pai forrando a mesa para as refeições. “Comida tinha que ser coisa saudável, não comprava refrigerante. Era extremamente simples e muito sofisticado ao mesmo tempo. Para a Tereza da novela global “Velho Chico” (2016), Pitanga amava as pessoas e a vida, exibindo grande respeito principalmente às mulheres.

Muitas com quem se relacionou amorosamente, entre elas Ítala Nandi, Zezé Motta e Maria Bethânia, dão os seus depoimentos no filme. “O mesmo carinho que ele teve com os filhos, teve também com as mulheres da vida dele. Você percebe a emoção transbordando em muitos dos depoimentos femininos. Quando eu menstruei, ele me mandou ramalhetes do campo, dando-me parabéns”, lembra.

O documentário acompanha esse homem que ocupa o lugar da fala com amor e alegria, sem deixar de ser crítico, como alguém que dança capoeira – “realiza golpes e contragolpes e, ao mesmo tempo, dança”. 

Ela conta que, “vendo o filme de novo, deu-me um insight, de como a formação primeira dele, com o mestre Pastinha, moldou a forma de se relacionar com a vida”. As fichas, aliás, continuam caindo, de acordo com Camila, em debates e sessões, promovendo entendimentos e mais elaborações. 

“O filme nos força a pensar o que queremos, sobre um projeto de Brasil que se quer construir. Está aí na roda, fazendo-nos olhar para geração a partir de um homem de 70 anos que tem uma disposição juvenil”, avalia a atriz, que é fruto do casamento de Pitanga com Vera Manhães.


"Ele teve que criar o próprio caminho, abrindo com facão", diz Camila Pitanga sobre o pai  

Camila Pitanga

 

 
Além do artista politicamente engajado e um pai afetuoso, o documentário mostra um Antonio Pitanga sedutor, que se envolveu com várias colegas de filme, como as entrevistas com Ítala Nandi e Zezé Motta evidenciam.
Meu pai foi o primeiro protagonista negro do cinema brasileiro. Ele estava ali como ator, mas absolutamente sabedor que estava dialogando com uma série de dores e realidades, como o racismo e o preconceito. E porque ele viveu muitas coisas, como um homem que sempre amou as pessoas e a vida, tem um respeito imenso pelas mulheres. Entendeu que a luta dos negros estava totalmente ligada à luta das mulheres. Ele viu a necessidade de pensar como um corpo só.

O filme refaz o percurso de Antonio Pitanga a partir da própria condução dele, em encontros com amigos e pessoas importantes para a carreira dele. Ou seja, não precisou usar narração ou entrevistas, muito recorrentes nos documentários.
Primeiramente tivemos uma longa conversa com meu pai, para escolher os temas e provocar esses encontros. Com isso conseguimos radiografar as linhas de força que o filme deveria tocar, em especial a questão do negro em movimento, em que esse ator criado nos anos 40 teve que trilhar seu caminho cortando, abrindo com facão mesmo. Um caminho perigoso, cheio de cipós e matas. Estava bastante claro para a gente que deveria haver uma dimensão familiar, afetiva, com a minha presença, da minha avó, do meu filho Antonio... Precisava botar a família baiana na roda.

Outra linha de força é a projeção cinematográfica dele, com mais de 70 filmes. 
Fizemos uma seleção de filmes, escolhendo aqueles que achávamos que tinha maior força e diálogo com a vida dele. A entrevista foi importante para pensar como esses personagens entrariam na história dele com a Bahia, a infância, a passagem por São Paulo, mostrando um lado pouco conhecido deles no teatro paulista... Aliás, foi Glauber Rocha quem o aconselhou que, se quisesse ser ator, deveria fazer teatro. Uma primeira ideia era um pai contando histórias para a filha, mas já no segundo dia de filmagens, percebemos que era melhor deixar esse homem solto, falar com a câmera e com as pessoas que surgissem. Em algumas coisas eu entrei, para provocá-lo. Ao invés de uma entrevista, fria e racional, foi importante deixar a câmera naquele lugar, dando tempo para as coisas acontecerem.

Seu pai fez muito cinema. Você menos, dedicando-se mais à televisão. Esse projeto inaugura, talvez, um desejo de buscar outros caminhos em sua carreira?
Essa transformação não se inaugura no “Pitanga”. Já vem de um tempo, de “Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios”, que fiz com Beto Brant. São escolhas que apontam para a maneira que quer o viver, um projeto artístico de vida. Sem dúvida, “Pitanga” fortalece essa escolha, aprofundando-a e dando mais sentido.

Você pretende continuar dirigindo? Filmes de ficção também seriam uma opção?
(risos) Ah, agora estou entendendo onde você quer me levar (risos). Ainda estou muito mergulhada em “Pitanga”, projeto que me fez estar muito voltada para minha família. Pretendo tirar um período sabático, dando uma chance para regar as minhas novas sementes e esperar pelo que podem me trazer.

Você é muito engajada politicamente e acredito que isso venha de seu pai. Mas talvez isso aconteça num momento diferente, em que está sendo difícil para os artistas manifestarem suas posições, não é verdade?
Mas era difícil também nos anos 60. Em 1964, era um grande risco se posicionar, difícil para dedéu. Mas eles continuaram acreditando, como vem ocorrendo agora. Temos uma oportunidade de fazer de novo, de criar novos arranjos, novas maneiras de comunicar, e se relacionar. Ainda estamos numa fase dura, de recusas, de dar passos para trás, machucando muita gente. Vivemos um estado de sufocamento, de más notícias, mas já vemos movimentos de secundaristas, de novas organizações de jovens, de negros, todos ocupando lugares na sociedade. O melhor a ser feito é afirmar as nossas crenças com escuta, saindo do lugar do ódio, para que a gente possa falar de avanços e recursos sem raiva. É preciso fazer, se colocar, se posicionar, somar, ouvir. Precisamos de novos paradigmas, não somente os econômicos. É necessário algo de humano, da realidade humana, partindo do pequenininho. É um trabalho de formiguinha, de trabalho de base. Creio que assim construiremos uma estrutura social melhor.