Num Oscar que revaloriza o gênero musical a partir das indicações de “Bohemian Rhapsody” e “Nasce uma Estrela”, o filme polonês “Guerra Fria”, uma das estreias de hoje nas salas de cinemas, surge como terceiro representante na premiação, que acontecerá no próximo dia 24, em Los Angeles.

Apesar de a questão política e o primor da fotografia em preto e branco do filme de Pavel Pawlikowski terem recebido maior atenção, a parte musical possui grande peso na narrativa. Além de exibir várias apresentações musicais, cada uma delas é representativa da situação vivida pelos personagens.

A história foca na relação amorosa entre um compositor e uma cantora, iniciada pouco depois da Segunda Guerra Mundial, quando a Polônia passa a integrar o bloco socialista. Ela atravessa décadas entre altos e baixos, decorrentes da personalidade difícil que carregam, encerrando-se em 1991.

Seria uma relação tempestuosa já tantas vezes mostrada na tela grande, colocando frente a frente um homem frio e controlador (Tomasz Kot) e uma garota inquieta e temperamental (Joanna Kulig). A diferença aqui é o contexto em que ela está inserida: durante a chamada cortina de ferro comunista.

A intensidade deste amor rivaliza com a política, tão sufocante quanto. A música deles vai se transformando com a interferência política, retirando o caráter mais ingênuo e rural da mazurka para imprimir símbolos comunistas. Cada vez mais eles são postos à margem e, mesmo na França, sentem-se estrangeiros naquela cultura.

Esse descolamento é muito forte no filme. Em determinada cena, um dirigente polonês ressalta que o compositor mora na França, sem ser francês, e nasceu na Polônia, mas é considerado um fantasma na terra natal. A mulher se casa com italiano para ter liberdade para transitar, mas transborda sentimento de não-pertencimento.

O desfecho reservado para 1991 (ano da queda do Muro de Berlim, principal símbolo da Guerra Fria) é muito sintomático destes espaços em constante movimento. Para o casal, o destino daqueles blocos feitos de concreto já não tem qualquer significado. Só o amor, mesmo à distância, parece movê-los.

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