BRASÍLIA – A política atual deu o tom da mostra competitiva do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, na noite de terça-feira, com a exibição de filmes que abordam a angústia dos próprios realizadores após o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

 

Tanto o baiano Marcus Curvelo, que assina o curta-metragem “Mamata”, quanto a paranaense Heloísa Passos, do longa “Construindo Pontes”, se põem à frente da câmera, verbalizando a sua indignação e desolação sobre a situação do país.

 

Em “Mamata”, Curvelo assume pela segunda vez o personagem Jóder (presente também em “Ótimo Amarelo”), um rapaz atrapalhado que vai para Brasília prestar um concurso e perde a prova após cair na na noite da capital federal, definido por ele como "pedalada".

 

O humor é usado como crítica, andando junto com a tragédia. “Quando exibi meu filme anterior no festival, estávamos passando por um dos piores momentos do país”, registra Curvelo, que aproveitou para gravar várias cenas na cidade, como gritar "Fora Temer!" nas ruas desertas.

 

Para falar do convívio com o pai, um engenheiro conservador que teve seu momento de glória durante a ditadura (que ele chama de “revolução”), Heloísa encontrou referências nos filmes “Diário de uma Busca” e “Dias com Ele”, que retratam relações entre pai e filha.

 

“Foram esses filmes que me deram coragem (para fazer), que me fortaleceram. O filme nasce da vontade de eu poder dialogar com esse homem, que é meu pai, que era muito difícil naquela época de ditadura, em que o diálogo não existia nas escolas”, explica a cineasta.

 

Para a roteirista Stefanie Kremser, o embate ocorrido em “Construindo Pontes” é um microrretrato do Brasil, em que a possibilidade de democracia passa pela questão do afeto, algo que não se aprende apenas nas escolas.

 

“Foi surpreendente fazer esse filme, uma exposição muito grande. Eu me vi no jogo da aventura que é viver”, afirma Heloísa, conhecida diretora de fotografia que é uma das poucas votantes do país na premiação do Oscar.

 

Como observado pela plateia, apesar do confronto político, é a figura do pai que se sobressai, a partir de sua serenidade. “Eu descobri que não era uma grande atriz. E que meu pai era um ator. E aquela calma dele é que me fazia sair do sério”, detalha Heloísa.

 

(*) O repórter viajou a convite da organização do Festival de Brasília