BRASÍLIA – Anna Muylaert está “grávida” há dois anos e meio. O “filho” só agora começa a nascer: um novo filme que tratará do tema machismo. Diretora do premiado “Que Horas Ela Volta?”, a cineasta acabou de pôr no papel uma escaleta de dez páginas e, acredita, em breve terá uma primeira versão do roteiro.

“Desde 2015 estou grávida dessa doença que é o machismo. A doença temática é o ouro do cinema. É você saber do que vai falar. Isso é o que chamo de direção. O resto é secundário”, registra Muylaert, que comandou uma <CF36>master class</CF> na última edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Para trabalhar atrás das câmeras, amar o cinema é fundamental. Mas não é suficiente, ensina a diretora. “Uma coisa tem que vir antes: o ser humano. O objeto do trabalho do crítico é o cinema. É o nosso também, mas não é possível fazer cinema sem saber para onde levar seu olhar, sem saber o que quer dizer”, assinala.

“Se quero contar uma história, tenho que saber o que está por trás. Essa é a primeira questão: a semente, o que está por baixo. Até virar um filme tem todo um processo”, observa, ao explicar a demora para conceber o novo filho. O caminho, diz ela, muitas vezes é frágil, ficando anos “por baixo, sem forma”.

Mudanças
Com “Que Horas Ela Volta?” não foi diferente. Muylaert levou 20 anos para filmar a história de Val, empregada doméstica de uma família rica, em São Paulo, que recebe a visita da filha contestadora, que não via há anos. Ela põe aquele lugar de cabeça para baixo, mexendo com todos os seus integrantes.

“Aquela situação, aquela dor, a história da empregada, o uniforme branco, sempre estava ali, mas não conseguia chegar no resultado. Ela teve várias encarnações, mas a inflamação por baixo estava ali o tempo todo, com a necessidade de falar aquilo”, lembra Muylaert, que envelheceu a personagem e alterou detalhes quando Lula virou presidente da República.

A realizadora se mete em todas as fases do filme (“Até no brinde que distribuiremos para a imprensa”, frisa), mas o que gosta de fazer é o roteiro. Mesmo hoje com recursos públicos voltados para desenvolvimento de roteiros, ela ainda tem “essa mania de, se os recursos demorarem muito, escrever do mesmo jeito”.

Após a sua experiência na televisão, em programas infantis da TV Cultura como “Castelo Rá-Tim-Bum” e “No Mundo da Lua”, ela entendeu a importância de um bom roteiro em mãos. “Percebi o quanto é importante ter uma estrutura narrativa para fazer um filme. Metade da minha direção está no roteiro, no que é feito antes”, explica.

 

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A diretora apresentou "filmes demo" de suas principais obras, como "Que Horas Ela Volta?" e "Durval Discos"

 

'Demo’ foi fundamental para Paulo Miklos ser escalado como par romântico de Glória Pires

A cada nova produção, Anna Muylaert realiza o que ela chama de “demo filme”, uma espécie de storyboard do que será o trabalho definitivo. “Filmo do início ao fim, monto e boto música... Quando eu vou filmar de verdade, já peguei muito erro, já me defendi antes. (É importante fazer) nem que seja só para ouvir o roteiro. Com o som, você já tem uma ideia do domínio do ritmo”, destaca a cineasta.

Foi a partir desta “demo” que ela conseguiu convencer os produtores de “É Proibido Fumar” a escalar o músico Paulo Mikos a fazer par romântico com Glória Pires. “Ninguém queria que ele fosse, diziam que ele não iria aguentar. Quem acompanha novela sabe que o galã natural da Glória não é o Paulo. Fiz a demo e, já na primeira cena, não precisava ver mais. Ele matou a pau”, lembra ela. Assim, para Muylaert, a grande função da “demo” de “É Proibido Fumar” foi “trazer o Paulo para dentro” da produção.

Mas ela precisou fazer arranjos no roteiro, como também aconteceu em “Durval Discos”, seu primeiro longa-metragem. “Ficou exatamente como estava na demo. Em ‘Durval’, o primeiro ato do filme era enorme. Os diálogos eram uma delicia de ler, mas desequilibram o filme. Aí tirei 20 minutos desse ato e acrescentei 20 no último”, recorda.

Roteiros
Os problemas de “É Proibido Fumar” foram detectados antes da demo, quando a cineasta participou de um laboratório de roteiro promovido pelo Sesc, que selecionava dez projetos por ano e levava os autores para uma imersão num hotel, para receberem consultoria de vários especialistas, brasileiros e estrangeiros. “Apanhei muito lá. Um consultor disse que eu sabia escrever diálogo. Outro, que a história era ruim. E um terceiro falou que estava mal estruturado”, revela.

“Roteirista tem que ter a casca dura. Você chega toda feliz num laboratório destes, comemorando estar entre os dez escolhidos, mas já no primeiro dia o comentário era de que fulano não tinha ido almoçar porque estava chorando no quarto”, conta Muylaert, que já tinha “apanhado” quando um consultor de origem belga resolveu lhe ensinar um sistema chamado “sequence approach”, amplamente usado no cinema americano.

“É um sistema métrico e rítmico de escrever o roteiro. No Brasil, geralmente você só se preocupa em dividir os atos em três. Nesta métrica, o início tem que ter 40 minutos, o meio também 40 e o final, 20. Mas o belga me falou que eu poderia dividir mais até chegar a dois minutos de tempo de cada cena. Todas elas passam a ter a mesma duração, como na música. Todo o cinema clássico foi feito desta maneira”, registra Muylaert.

No início, ela achou a ideia absurda e passou meses minutando os grandes filmes do cinema. “Descobri que Billy Wilder seguia exatamente a lógica dos dois minutos, um relógio. (Alfred) Hitchcock é bastante próximo e (Stanley) Kubrick varia um pouco, mas está perfeitamente dentro disso. Percebi que isso ajuda o filme a ter uma estabilidade rítmica. Cinema é, antes de tudo, música; o tempo é a sua grande força. Depois vem a imagem e o som”, diz.

 

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Regina Casé, protagonista de "Que Horas Ela Volta?", só teria dado sinal verde após ver a “demo filme”

 

Apesar de ser ‘fuleiro’, pré-filme é importante para atores e equipe ‘sentirem o trabalho’

O filme “demo” também foi determinante para o sinal verde de Regina Casé, protagonista de “Que Horas Ela Volta?”. A atriz estava com agenda apertada, mas bastou ver o pré-filme para dar início à produção. “Ela fechou o ‘Mac’ e disse: ‘Vamos filmar!’. O ator precisa ter certeza de onde está entrando”, afirma Muylaert.

A “demo” não só é mostrada para o elenco, como para toda a equipe técnica. “As pessoas conseguir sentir o filme, apesar de fuleiro, sendo uma grande referência, quase que uma reunião permanente. Aí, quando você vai filmar, não tem aquele peso de estar com mais de 65 pessoas no set, tendo alguma coisa para decidir”, observa.

Ela explica que, ao fazer o “demo” sozinha, aproveita melhor a sua intuição. No caso de “Que Horas Ela Volta?”, muitas cenas foram inventadas neste momento. “Eu não sabia, no roteiro, que a dupla formada pela Val e pela faxineira tinha um potencial cômico. A partir dali, ficou muito claro para mim”, exemplifica.