“Só indo lá para saber”, afirma Antonio Fagundes, seguido por uma boa risada. De passagem por Belo Horizonte para participar do lançamento de uma biografia a respeito de sua trajetória, o ator de 69 anos faz o tipo “conto o milagre, mas não digo o nome do santo”, quando perguntado sobre como consegue ainda levar milhares de espectadores ao teatro, sem se deixar vencer por “aquela maquininha infernal”, como define o celular.
 
“A gente do teatro realmente está sendo bombardeada, primeiro pelo mundo louco, um mundo, como diz (Zygmunt) Bauman, líquido, em que as coisas se desfazem e refazem rapidamente, onde não há permanência. O teatro está aí, há 2.500 anos resistindo a tudo isso. Costumo dizer que, para conseguir reunir 700 pessoas no escuro, durante 1h30,fazendo-as prestarem atenção em seis personagens que desenvolvem uma ideia, é uma revolução”, observa.
 
A sua relação com a profissão parte desse desafio constante em angariar olhares para o palco. Com um extenso currículo no teatro, na TV e no cinema, ele garante que não tem a menor preocupação com o legado. Tanto é assim que jogou fora duas décadas de documentos sobre as suas investidas teatrais. “O armário já estava cheio, nunca tinha mexido naquilo e ninguém mostrou interesse. Mas isso foi antes da Rosangela”, diverte-se.
 
A Rosangela de que ele fala é a autora do livro “Antonio Fagundes no Palco e na História: Um Amor”, lançado pela editora Perspectiva. Pesquisadora do teatro brasileiro contemporâneo, Rosângela Patriota enfoca um ator que, embora tenha conquistado a notoriedade por seu trabalho nas novelas e seriados, como é praxe no Brasil, começou no tablado e nele continua já há de mais de cinco décadas.
 
Aqui e agora
“Me importa a história que ainda quero viver e que estou vivendo agora; no Seu José e na Dona Maria sentados ali na minha frente. Nunca me preocupou o que vão lembrar de mim daqui a 100 anos. Alguns colegas trabalham só para o futuro, para a História. Meu processo é inverso. Quero saber do agora, o que tenho que fazer, num momento em que a internet e o celular estão bombando, para chamar a atenção da plateia”, explica. 
 
Tem sido assim desde 1975, quando começou a produzir os seus próprios espetáculos, após passar pelo Teatro de Arena e pela Companhia Estável de Repertório. “Graças a Deus, tenho acertado. Realmente houve um acerto nos últimos 30 anos principalmente”, analisa Fagundes, que embarca nesta semana para Portugal, onde ficará até o final do ano, com a peça “Baixa Terapia”.
 
A dedicação ao teatro neste semestre se deve também ao descanso dado pela Globo à imagem do ator, que não faz novela desde “Velho Chico”, há dois anos, quando ganhou caracterização, no mínimo, incômoda, com peruca e ternos coloridos para aparentar mais jovem. Mas é possível que o público o veja na telinha em 2019, em novo folhetim, “Bom Sucesso”.
 
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Ator é tema de biografia escrita por Rosangela Patriota, lançada em BH na última semana

 
 
A ideia de abordar a sua trajetória no livro “Antonio Fagundes no Palco e na História: Um Amor” teria partido de você, após encontro com a pesquisadora Rosangela Patriota?
Foi uma mistura, porque a Rosangela estava fazendo uma entrevista comigo sobre Fernando Peixoto (ator e diretor ligado ao Teatro Oficina de São Paulo), para outro livro que está escrevendo. Como é uma historiadora de arte, ela foi pesquisar minha carreira, e observou que não tinha nada sobre o grupo que criei, a Companhia Estável de Repertório, apesar de ter ficado mais de dez anos em cartaz em São Paulo. Então passamos a conversar sobre a possibilidade de um livro sobre a Companhia, mas logo ela viu que essa história começava muito antes e acabou falando de minha carreira inteira, incluindo cinema e TV. O projeto se tornou uma coisa maior.
 
Há pouca bibliografia focada na produção teatral de um ator no Brasil.
Sim, um dos pontos polêmicos no livro fala sobre o fato de estudarmos os grandes movimentos do teatro brasileiro, mas nunca os atores sobre os atores que participaram deles. O ator nunca está inserido nesta história. Você sabe sobre o Teatro de Arena, mas quais atores fizeram ninguém sabe. Quem fez “O Rei da Vela” e como foi o processo com os atores? Essa história não existe.
 
O ator é mais lembrado por seus papéis na TV e no cinema, mais do que no teatro, não é verdade?
No meu caso, primeiro vem a TV e depois o teatro. O cinema fica em terceiro. Cinema fica bom quando o filme vai para a TV. Um filme de sucesso faz um milhão e meio de espectadores, mas são poucos os que conseguem esses números.
 
Apesar de ter produzido todos os seus espetáculos nos últimos 40 anos, no cinema você só teve coragem de participar deste processo em “Contra Parede”, que é deste ano. Por que?
Cinema é mais complicado de produzir. Ele tem um problema semelhante ao teatro, que é a exibição. O momento em que você percebe que não existe vontade do governo em investir em política cultural é quando faz uma peça e não tem teatro para fazer ou manter em cartaz. No cinema, o filme não consegue sala. E, quando entra, leva só dois, três mil espectadores. Não paga nem a impressão do bilhete de entrada. Demorei um pouco mais para entender esse processo.
 
Mas “Contra Parede” não passou nos cinemas...
Ele está na Globo Play e, dentro de um mês, no Now (plataforma de video on demand da Net). Antes, passou no “Supercine” (faixa da Rede Globo, nos sábados, dedicada a filmes). Por que passar na sala escura se fiz três milhões de espectadores? Também quis lançar logo por causa do tema, que trata de eleições.
 
Você falou em falta de investimento em política cultural e o exemplo mais marcante disso foi o incêndio do Museu Nacional.
O Brasil está apagando a nossa história. Ontem estava conversando com um amigo sobre isso, lembrando de coisas absurdas como o fato de Ruy Barbosa (diplomata, escritor e político) mandar queimar todos os registros de entradas de negros do Brasil. Não sabemos de onde eles vieram, quais eram as suas tribos, qual foi a formação deles. A justificativa dele era que aquilo era uma vergonha nacional. Pode ter sido, mas não poderia acabar com esses registros. (O jornalista e escritor) Ivan Lessa tinha uma frase maravilhosa sobre isso: “De 15 em 15 anos, o Brasil esquece do que aconteceu nos últimos 15 anos”. Com esse incêndio, perdemos coisas que jamais vamos recuperar. Imagine a que ponto esse museu chegou para pegar fogo. Quantos outros museus no Brasil não estão correndo esse mesmo risco?