"Parece que estou vendo todas estas pessoas, como se fosse naquela época”, admira-se, o fotógrafo Assis Horta, 97 anos, ao entrar na Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard, no Palácio das Artes. No local, o veterano conferia a própria exposição “Assis Horta: Retratos”, que será aberta nesta quarta-feira (8).

De chapéu, bengala, muito lúcido e bem-humorado, o fotógrafo diamantinense admira um trecho da própria obra criada com fins práticos, mas que hoje, é vista com olhar artístico e histórico. Na mostra, o Assis Horta expõe 200 retratos que fez entre as décadas de 1930 e 1950, no estúdio que manteve em Diamantina, região Central do estado, até 1967.

São registros em 3x4 de trabalhadores, segundo ele, a maioria funcionários de minas da cidade dele – alguns destes cidadãos, até então, nunca haviam tirado uma fotografia. Há também fotos de famílias e de pessoas sozinhas, de corpo inteiro. A exposição traz ainda objetos antigos de trabalho do estúdio.

Esta é apenas uma parte do acervo de Assis Horta. Entre a produção dele, há também paisagens e monumentos de Minas Gerais. São imagens que ele reuniu como funcionário do antigo Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), quando viajou por Minas registrando aspectos curiosos dos principais cartões-postais do estado.

Uma das paisagens é a foto em 360 graus, de Diamantina, feita em 1954, a partir de 10 cliques tomados lado a lado. A imagem foi feita da torre da Igreja do Amparo, em Diamantina. Na exposição, a panorâmica, devidamente ampliada, é apresentada no formato de 1x10 metros.

A seleção de imagens foi feita pelo curador e também fotógrafo Guilherme Horta. Em 2012, ele se deparou com o volumoso acervo cuidadosamente guardado na casa de Assis em Belo Horizonte, onde está radicado desde 1967. Desde então, Guilherme propôs um estudo sobre o material e a exposição.

Em um grande armário, Assis Horta guardava pelo menos 30 mil negativos em “chapa de vidro” - milhares de rostos sofridos, felizes, infantis, velhos. “Aquele dali, ele está com meu chapéu, meu paletó... Ele pediu uma 3x4, depois pediu uma outra foto para mandar para a família em São Gonçalo”, aponta Assis Horta, sobre a simplicidade de um dos clientes, em uma das imagens.

Os retratos dos trabalhadores estão com datas, pois eram destinados às carteiras de trabalho. “Criada em 1943, a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) exigia que as fotos tivessem datas. Isso vigorou até 1976”, lembra o curador. Para a exposição, os 3x4 foram ampliados, assim como os retratos de corpo inteiro dos personagens.

“Rabo Mole”

“De terno, eu não tiro!”, teria avisado o morador de rua de Diamantina, conhecido como “Rabo Mole”. A imagem dele é uma das que foram ampliadas para a exposição. O registro foi sugerido de brincadeira por moradores da cidade, nos anos 1940.

E são as imagens de corpo inteiro que guardam as maiores curiosidades, especialmente, por meio dos costumes de se vestir do início do século passado. Os homens se apresentam com ternos de linho meio amassados e com bigodinhos milimetricamente desenhados.

Já as mulheres ostentavam penteados com grampos aparentes e topetes. As crianças se mostravam bem-vestidas com jardineiras e penteadas impecavelmente para “tirar retrato” - as meninas vinham com enormes laças de fita nos cabelos.

Arte para a posteridade

A filha do fotógrafo, Silvia Horta, diz que antes da pesquisa do curador, a família ainda não tinha noção do valor artístico do acervo do patriarca. Segundo ela, algumas pessoas ainda procuram o pai pedindo fotos de antepassados situados em eventos que participaram em Diamantina. “Ô, 'Seu' Assis, tem aí uma foto da primeira comunhão, do casamento de minha mãe?”, reproduz a filha, sobre as demandas.

Com o “achado”, Guilherme Horta ganhou o Prêmio Marc Ferrez de Fotografia Funarte 2012. A exposição já foi levada em Ouro Preto, Brasília e no Festival de Fotografia de Tiradentes, mas com outros recortes.

Hoje, com dez filhos, 12 netos e 7 bisnetos, “seu” Assis está aposentado e se dedica a acompanhar os debates e as exposições sobre o seu trabalho. Porém, uma coisa ele não aceita: abrir mão das máquinas antigas. E foto digital, como faz este celular, o senhor encara? “Não, não. Se eu usar isso, eu perco o meu sonho”, justifica o artista, hoje, radicado em BH.

“Assis Horta: Retratos”, de hoje a 7 de junho, na Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard, Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1.537, Centro). Terça à sábado, das 9h30 às 21h; e domingos, das 16h às 21h. Entrada Gratuita.